A participação de jogadores envolvidos em investigações e processos relacionados à violência sexual tornou-se um dos principais temas extracampo da Copa do Mundo de 2026. Mesmo sem condenações definitivas, atletas convocados por diferentes seleções enfrentam questionamentos de organizações de defesa dos direitos das mulheres e alimentam um debate internacional sobre os critérios utilizados pelas federações nacionais para definir quem representa seus países no maior torneio do futebol mundial.

Os casos apresentam situações processuais distintas, mas têm um ponto em comum: reacendem a discussão sobre o equilíbrio entre o princípio da presunção de inocência e a responsabilidade ética das entidades esportivas diante de acusações graves envolvendo violência contra mulheres.

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THOMAS PARTEY RESPONDE ACUSAÇÕES NA INGLATERRA

📷 Thomas Partey responde na Justiça britânica a acusações de estupro e agressão sexual envolvendo quatro mulheres; o jogador nega as acusações e aguarda julgamento. |Reprodução/Instagram/@villarrealcf e @thomaspartey5

O caso de maior repercussão envolve o meio-campista ganês Thomas Partey, ex-jogador do Arsenal. Ele responde na Justiça do Reino Unido por sete acusações de estupro e duas de agressão sexual envolvendo quatro mulheres.

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Partey se declarou inocente de todas as acusações, e o processo ainda aguarda julgamento. Durante a Copa do Mundo, sua situação também gerou um episódio inusitado: o Canadá negou sua entrada no país para uma partida da fase de grupos em razão de seu processo judicial, embora o atleta tenha participado normalmente das partidas disputadas nos Estados Unidos.

HAKIMI SEGUE NA SELEÇÃO ENQUANTO PROCESSO CONTINUA NA FRANÇA

📷 Achraf Hakimi responde a acusação de estupro na Justiça francesa desde 2023 e nega envolvimento, afirmando ser alvo de tentativa de extorsão; caso ainda está em andamento. |Reprodução/Instagram/@achrafhakimi

Capitão da seleção de Marrocos, Achraf Hakimi também disputa o Mundial enquanto responde a uma acusação formal de estupro na Justiça francesa. A denúncia foi apresentada em 2023 por uma mulher de 24 anos. Hakimi nega qualquer crime e afirma ser vítima de uma tentativa de extorsão. O processo permanece em tramitação, sem condenação definitiva, mas sua permanência na seleção marroquina continua sendo alvo de críticas de entidades de defesa dos direitos das mulheres.

De acordo com o relato da denunciante às autoridades, ela conheceu o atleta por meio do Instagram, em janeiro de 2023, e posteriormente foi até a residência dele em um táxi que, segundo a investigação, teria sido solicitado pelo acusado. A mulher afirmou que, no local, foi beijada e tocada sem consentimento e, em seguida, estuprada. Ainda conforme seu depoimento, ela conseguiu enviar uma mensagem de texto para uma amiga, que foi buscá-la na residência do jogador.

CAPITÃO DE CABO VERDE É INVESTIGADO DURANTE A COPA

📷 Ryan Mendes é investigado na Nova Zelândia após denúncia de estupro durante amistosos em Auckland; o jogador ainda não foi formalmente acusado. |Reprodução/Instagram

A histórica campanha de Cabo Verde também foi acompanhada por uma investigação envolvendo seu capitão, Ryan Mendes. O atacante é investigado pela polícia da Nova Zelândia após uma intérprete brasileira denunciar um estupro ocorrido durante amistosos realizados em Auckland, em março de 2026.

Segundo as autoridades neozelandesas, o inquérito permanece em andamento e nenhuma acusação formal foi apresentada até o momento. Mesmo assim, Mendes seguiu atuando normalmente pela seleção durante a competição.

CASOS DE SANO E ITO VOLTAM AO DEBATE DURANTE O MUNDIAL

📷 Kaishu Sano e Junya Ito estiveram envolvidos em casos distintos na Justiça japonesa; enquanto Sano teve investigação encerrada sem denúncia, Ito foi oficialmente inocentado por falta de provas. |Reprodução/Instagram/@kaishusano_1230 e Instagram/@1409junya

O volante japonês Kaishu Sano também voltou ao centro das atenções na Copa. Em 2024, ele foi preso sob suspeita de participação em um estupro coletivo em um hotel de Tóquio. Posteriormente, o Ministério Público japonês decidiu não oferecer denúncia após um acordo entre as partes, encerrando o caso sem julgamento. Ainda assim, sua convocação provocou forte repercussão dentro e fora do Japão.

Outro jogador da seleção japonesa envolvido em uma situação semelhante, o meio-campista Junya Ito foi oficialmente inocentado da acusação de agressão sexual apresentada por duas mulheres em janeiro de 2025. Segundo o Ministério Público de Osaka, a investigação foi arquivada por falta de provas, sem possibilidade de novos recursos.

O atleta havia chegado a mover uma ação por calúnia contra as denunciantes, mas o pedido também não foi aceito pela Justiça, encerrando os desdobramentos legais do caso.

DIREITO BRASILEIRO PROTEGE PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

Na avaliação da advogada Vanessa Egla, conselheira do Clube do Remo, mestra em Segurança Pública e atuante nos Direitos das Mulheres Torcedoras, é fundamental separar a discussão jurídica da análise ética sobre as convocações.

Segundo ela, no Direito brasileiro prevalece o princípio constitucional da presunção de inocência, o que impede que uma pessoa sofra restrições profissionais apenas por responder a um processo criminal. "Na condição de advogada criminalista, devo esclarecer que, no Direito Brasileiro, vigora o Princípio da Presunção da Inocência. Isso significa que, até o trânsito em julgado de uma decisão, o jogador não pode ter seu trabalho suspenso ou mesmo ser excluído apenas por responder a um processo", afirma.

Ela acrescenta que qualquer punição estatal nessa situação seria considerada arbitrária, já que a simples existência de um processo criminal não impede o exercício de uma profissão. Vanessa ressalva que existem exceções previstas na legislação, como situações em que o investigado representa risco à ordem pública, ao andamento do processo ou apresenta reiteração em condutas criminosas. "Mas aí já seria outra discussão", pontua.

CONVOCAÇÃO É DECISÃO AUTÔNOMA DAS ENTIDADES ESPORTIVAS

📷 Vanessa Egla, advogada criminalista, afirma que a presunção de inocência protege atletas sem condenação definitiva, mas defende que as entidades esportivas também devem considerar critérios éticos ao decidir sobre convocações para seleções nacionais. |Reprodução/Arquivo pessoal

Embora destaque a proteção jurídica garantida aos atletas, Vanessa Egla afirma que a realidade é diferente quando se analisa a autonomia das entidades esportivas. Segundo a advogada, FIFA, federações e seleções não possuem obrigação legal de convocar qualquer atleta, ainda que ele esteja apto esportivamente.

"Para além do prisma da lei, é preciso lembrar que prevalece a autonomia privada dessas entidades. Nada obriga uma federação ou uma seleção a convocar determinado jogador. A escolha passa também por critérios internos e institucionais", explica.

Na visão da especialista, uma eventual decisão de deixar um atleta fora da equipe em razão da natureza das acusações seria uma opção de caráter ético, e não jurídico.

RESPONSABILDADE ÉTICA E IMAGEM ENTRAM EM CAMPO

Vanessa Egla defende que o debate precisa considerar não apenas os aspectos legais, mas também a responsabilidade social e institucional do futebol. "Futebol nunca foi e jamais será apenas futebol", afirma. Para ela, a discussão ganha ainda mais relevância diante do crescimento das pautas relacionadas ao respeito às mulheres dentro do esporte.

Como exemplo, a advogada lembra uma orientação recente da FIFA para que as emissoras evitem closes com apelo sexual em torcedoras durante as transmissões da Copa do Mundo. A medida surgiu após anos de críticas sobre a objetificação de mulheres nas coberturas televisivas.

Na avaliação da criminalista, esse precedente demonstra que as entidades esportivas já passaram a incorporar preocupações sociais em suas diretrizes.

IMPACTO SOBRE AS VÍTIMAS E A IMAGEM DAS ENTIDADES

Para Vanessa Egla, discutir a convocação de jogadores acusados de crimes contra mulheres é fundamental tanto pelo impacto social quanto pelas consequências institucionais. "Precisamos falar sobre esse tema porque ele é ético e porque produz efeitos concretos sobre vítimas, sobre a proteção das mulheres e também sobre a imagem das entidades esportivas", afirma.

Ela observa que questões reputacionais têm peso crescente no futebol moderno e influenciam decisões administrativas e comerciais. "Nenhuma seleção, federação ou mesmo a FIFA deseja desgaste de imagem, porque isso gera prejuízo. As questões éticas são importantes, mas também há um componente mercadológico que hoje influencia decisões no esporte", reconhece.

Para a advogada, ampliar esse debate pode contribuir para mudanças futuras nas diretrizes adotadas pelas entidades esportivas em relação à convocação de atletas envolvidos em casos de violência contra mulheres.

DEBATE PERMANECE ABERTO NA COPA DE 2026

Os episódios registrados durante a Copa do Mundo de 2026 mostram que o tema está longe de um consenso. Enquanto as federações justificam as convocações com base na presunção de inocência e na ausência de condenações definitivas, críticos defendem que representar uma seleção nacional exige também critérios relacionados à ética, à responsabilidade institucional e à imagem pública.

Em todos os casos citados, os processos seguem em estágios distintos e nenhum dos atletas mencionados possui condenação definitiva.

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