Em tempos nos quais a informação atravessa telas na velocidade de um toque e o futebol já não se limita aos noventa minutos nem às quatro linhas, o jornalismo esportivo se vê diante do próprio espelho. Entre memórias do rádio, consolidação da televisão e o domínio irreversível das plataformas digitais, contar histórias sobre o esporte passou a exigir não apenas agilidade, mas também reflexão sobre linguagem, propósito e compromisso com o público.
Foi nesse contexto de transformação que o jornalismo esportivo paraense se reuniu na noite de segunda-feira (23), no auditório do Grupo RBA, durante mais uma edição do "Bate-Bola", iniciativa vinculada ao Troféu Camisa 13. Com o tema "Jornalismo esportivo: uma nova linguagem entre gerações", o encontro promoveu um diálogo franco entre profissionais experientes, jovens comunicadores e estudantes interessados em compreender os rumos da profissão.
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Mediado pela jornalista Paula Marrocos, o debate foi marcado por troca de experiências e reflexões sobre o impacto das novas tecnologias na forma de produzir e consumir conteúdo esportivo. Idealizador do projeto, Zaire Filho destacou que a proposta vai além da celebração anual dos melhores do futebol local.
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"O Troféu Camisa 13 é mais que uma premiação. É um movimento de valorização de quem constrói diariamente a narrativa esportiva. As plataformas mudam, mas a responsabilidade do jornalista permanece", afirmou.
GERAÇÕS DIFERENTES DO MESMO OFÍCIO
Entre os convidados, profissionais de diferentes gerações enriqueceram o debate ao apresentar visões moldadas por experiências distintas, mas conectadas pelo mesmo compromisso com a informação. A diversidade de trajetórias ajudou a ilustrar como o jornalismo esportivo se transformou ao longo das décadas, acompanhando as evoluções tecnológicas sem, contudo, abrir mão de seus pilares fundamentais.
Com uma carreira que atravessa mais de cinquenta anos dedicados à cobertura esportiva, o cronista Gerson Nogueira destacou que, embora a forma de comunicar tenha passado por mudanças profundas - do rádio analógico às transmissões em tempo real nas redes sociais -, a essência do ofício permanece intacta. Para ele, a velocidade imposta pelo ambiente digital exige adaptação, mas não pode comprometer o rigor que sustenta a credibilidade do jornalista. "Hoje você tem uma linguagem muito mais objetiva e instantânea, com as plataformas digitais. Mas as regras do bom jornalismo não mudaram: informação, pesquisa e checagem continuam sendo essenciais", destacou.
PÚBLICO REDEFINE DESAFIOS
Para o cronista e pesquisador Rodolfo Marques, as transformações no jornalismo esportivo não se limitam às redações, mas passam, sobretudo, pela forma como o público se relaciona com o conteúdo. Segundo ele, o torcedor contemporâneo assumiu um papel mais ativo, deixando de ser apenas receptor da informação para também se tornar produtor, comentarista e multiplicador de narrativas em tempo real.
Esse novo comportamento, impulsionado pela popularização dos smartphones e das redes sociais, alterou profundamente a dinâmica da cobertura esportiva. O que antes era consumido de maneira mais passiva, com hora marcada no rádio ou na televisão, hoje acontece de forma simultânea, fragmentada e interativa, exigindo dos profissionais uma capacidade maior de adaptação sem abrir mão do rigor. "Hoje se consome transmissão esportiva com o celular na mão, interagindo, gravando, comentando. Antes, era algo muito mais centralizado no rádio e depois na televisão. O desafio é integrar essa nova dinâmica sem perder qualidade", analisou.
GERAÇÃO MOLDADA NO AMBIENTE DIGITAL
Representante de uma geração forjada sob a lógica das plataformas digitais, o jornalista Lucas Quirino ressaltou que a internet ampliou horizontes para a profissão, mas também impôs novos desafios éticos e técnicos. Segundo ele, participar do debate vinculado ao Troféu Camisa 13 significou mais do que uma oportunidade de visibilidade, assumindo também o peso simbólico de dar voz a jovens formados em meio à revolução tecnológica.
"Foi uma experiência única estar participando de um evento tão grandioso como um debate que envolve o Troféu Camisa 13. E estar ao lado de nomes de grande renome é, além de ser uma oportunidade de aprendizado, uma responsabilidade tremenda, por estar representando ali toda uma nova geração que vem da academia nos últimos cinco, dez anos. Estamos imersos no mundo digital, não se pode negar isso. Mas o que tratamos foi que, apesar dessa nova realidade trazer mais ferramentas, ela também traz enormes responsabilidades", comentou.
Na avaliação de Lucas Quirino, o cenário atual exige ainda mais atenção aos fundamentos da profissão: "O imediatismo da informação vem virando uma regra no jornalismo esportivo, mas nós, como profissionais, não podemos deixar essa velocidade atropelar os princípios básicos que aprendemos na faculdade, e isso independe de qual geração pertencemos".
ESPAÇO DE REFLEXÃO
O "Bate-Bola" integra a programação do Troféu Camisa 13, cuja cerimônia está marcada para o dia 10 de março, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Pará. Mais do que reconhecer destaques, o projeto consolida um espaço de reflexão sobre o papel da imprensa esportiva em um cenário onde a tecnologia transforma formatos, mas não substitui o compromisso com a verdade.
Ao fim da noite, ficou evidente que, independentemente da plataforma, seja no rádio de pilha ou na tela de um smartphone, o bom jornalismo continua sendo aquele capaz de traduzir, com responsabilidade e sensibilidade, as paixões que movem o futebol.
