A queda nos preços dos carros usados já é sentida no mercado de Belém e tem levado revendedores de seminovos a reduzir valores para conseguir manter o giro dos estoques. Segundo o empresário do setor de veículos Igor Mutran, a chegada dos modelos chineses, aliada à reação das montadoras tradicionais e ao cenário econômico, mudou a relação de preços entre veículos novos e usados.
"A questão da queda dos preços, realmente houve. Com a chegada dos carros chineses, teve que reduzir o preço dos carros seminovos", afirma Mutran. Para ele, os novos modelos passaram a oferecer uma combinação difícil de ignorar pelo consumidor: "Os carros chineses entregam muita tecnologia, têm uma alta garantia estendida e são novos, são zero".
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CARROS CHINESES MUDARAM O JOGO
Na avaliação do empresário, a entrada mais forte das marcas chinesas aumentou a concorrência no mercado de automóveis e obrigou fabricantes tradicionais a reagirem com uma mudança na estratégia de vendas. "E as montadoras tradicionais, para não perder espaço, também tiveram que entrar no jogo dos chineses, nos preços baixos, para entregar também tecnologia", explica.
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Proprietário de uma loja de automóveis, Mutran cita como exemplo o movimento da Jeep, que lançou um novo SUV, o Avenger, com preço inicial de R$ 114 mil. "Até a Jeep agora lançou um novo modelo, uma SUV, a partir de R$ 114 mil. Então isso reduziu mesmo o preço dos seminovos, bem para baixo aí", afirma.
A consequência é uma pressão direta sobre quem trabalha com carros usados. Se o consumidor encontra um veículo novo, com tecnologia, garantia e preço competitivo, o seminovo precisa apresentar uma vantagem financeira mais evidente para continuar atraente.
FIPE JÁ NÃO REPRESENTA O MERCADO, DIZ EMPRESÁRIO
Outro problema enfrentado pelas revendas está na relação entre os preços praticados e a Tabela Fipe, tradicionalmente usada como referência para compra, venda e avaliação de veículos.
Segundo Mutran, a tabela já não acompanha integralmente a realidade das negociações. "Mas só que nós temos a Fipe, como parâmetro, e a Fipe hoje não condiz mais com o mercado, nem para fazer avaliação de carro e nem para vender", afirma.
Para o lojista, a mudança foi significativa. Em períodos anteriores, havia situações em que determinados veículos eram comercializados acima da referência. Hoje, segundo ele, a lógica se inverteu. "Hoje não se vende mais carro acima da Fipe, como acontecia em muitos lugares", diz.
FATORES REGIONAIS TAMBÉM INFLUENCIAM NOS PREÇOS
Ele ressalta, porém, que os preços podem variar de acordo com a localização. "Depende de região para região também, de estado para estado", explica.
Mesmo quando o vendedor utiliza a Fipe como referência, a concorrência tornou mais difícil praticar esse valor. "Hoje, no máximo, as pessoas pedem a Fipe, mas como o mercado hoje é muito competitivo, como o preço dos carros novos está bem atrativo, hoje você tem que vender abaixo da Fipe para poder conseguir girar o seu estoque, vender os carros seminovos”, afirma.
REVENDEDOR PRECISA SE ADAPTAR PARA VENDER
A nova realidade também interfere diretamente na estratégia das lojas. Para Mutran, o revendedor precisa abandonar algumas práticas que funcionavam em um mercado menos competitivo e acompanhar rapidamente as mudanças. "Hoje o lojista do seminovo, da revenda, loja de revendas, vai ter que se atualizar no mercado, vai ter que se readaptar para continuar no jogo", alerta.
Entre as estratégias necessárias estão a criação de novas campanhas e a revisão dos preços anunciados. "Vai ter que fazer novas campanhas, novos preços, conseguir atrair o cliente com o carro, como eu disse antes, abaixo da Fipe", explica.
A preocupação, segundo o empreário, é evitar que os veículos permaneçam parados no estoque enquanto o mercado continua reduzindo os preços. Nesse cenário, uma avaliação equivocada na hora da compra pode comprometer a margem de lucro da revenda.
O CONSUMIDOR ESTÁ MAIS CAUTELOSO
Apesar da redução nos preços dos seminovos, Mutran afirma que o mercado ainda enfrenta outro problema: a menor disposição do consumidor para comprar ou trocar de carro.
Para ele, a explicação está em uma combinação de fatores econômicos. "Hoje a questão de uma menor procura pelos carros seminovos é a questão hoje de uma conjuntura do país", afirma o empresário, citando o custo de vida elevado como um dos principais obstáculos. "É a questão do custo de vida alto, dos juros altos, a taxa Selic alta, 14% ao ano".
Com o crédito mais caro, o financiamento pesa mais no orçamento de quem pretende adquirir um automóvel. A consequência é que muitos consumidores passam a adiar a compra ou a troca do veículo.
GUERRAS E COMBUSTÍVEL TAMBÉM AFETAM O MERCADO
Além dos juros e do custo de vida, o cenário internacional também aparece entre os fatores apontados pelo empresário para explicar a cautela dos consumidores. "As guerras que levam o combustível lá para cima, o barril vai pelo dólar", ressalta Mutran.
Na avaliação dele, a combinação desses elementos reduz a capacidade financeira das famílias e interfere diretamente na decisão de comprar um automóvel. "Então tudo isso diminui o potencial do cliente fazer as compras, trocar de carro, comprar carro novo", resume.
O QUE MUDA PARA QUEM QUER COMPRAR
Para o consumidor de Belém, a atual configuração do mercado pode abrir maior espaço para negociação. Com lojistas buscando vender abaixo da Fipe e tentando acelerar o giro dos estoques, pesquisar preços e comparar diferentes veículos pode fazer diferença na hora de fechar negócio.
Ao mesmo tempo, a oferta de carros novos mais equipados e com preços agressivos obriga quem vende seminovos a justificar melhor a vantagem da compra.
Na visão de Igor Mutran, portanto, o mercado de usados entrou em uma fase de adaptação. "(o revendedor) Vai ter que se atualizar no mercado, vai ter que se readaptar para continuar no jogo", resume o empresário.
Portanto, a tendência é que o equilíbrio entre preços dos carros novos e seminovos continue sendo um dos principais fatores para definir as estratégias das revendas e o poder de negociação dos consumidores em Belém.
