Documentos confidenciais indicam que a correção das redações do Enem 2025 adotou critérios diferentes dos anos anteriores, mesmo com a negativa oficial do Inep.

Estudantes relataram quedas acentuadas no desempenho desde a divulgação dos resultados em 16 de janeiro de 2026. A apuração identificou alterações em pontos cruciais da correção. A primeira diz respeito à competência 4, que avalia o uso de elementos coesivos.

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O critério anterior era objetivo e considerava a contagem de termos como "dessa forma" e "consequentemente". Em 2025, a orientação mudou para classificações subjetivas: "pontual", "regular", "constante" ou "expressiva", segundo a reportagem exclusiva feita pelo portal G1.

Um corretor que pediu anonimato relatou a falta de parâmetro claro. "Era um outro direcionamento antes. No fim das contas, cada um levou em conta uma orientação", afirmou.

A segunda mudança apareceu na competência 5, que trata da proposta de intervenção. A redação do Enem exige cinco elementos obrigatórios:

  • Ação (o que será feito);
  • Agente (por quem);
  • Finalidade (com que objetivo);
  • Meio (de que forma);
  • Detalhamento da proposta.

Até 2024, a ausência de qualquer item resultava em perda de 40 pontos. Em 2025, uma nota adicional estabeleceu que a falta específica da "ação" implicaria desconto de 120 pontos.

"Tem aluno que esquece e que coloca a 'ação' de forma que parece finalidade. Isso causou a perda de mais pontos do que ele pensava", questionou um corretor.

Repertório sociocultural com peso maior

A terceira alteração envolveu o repertório sociocultural. Embora a grade oficial não previsse mudança, um documento extra enviado após os treinamentos orientou que a competência 2 dialogasse com a 3.

Com isso, repertórios considerados inadequados passaram a gerar desconto em duas competências simultaneamente.

Corretores afirmaram que esse fator explica boa parte das quedas abruptas nas notas. A ampliação do peso dessa avaliação não constava nos critérios divulgados oficialmente.

Inep nega alterações nos critérios

O presidente do Inep, Manuel Palacios, reafirmou que não houve mudança nos critérios.

"Não houve nenhuma mudança no critério de correção. São os mesmos corretores e a mesma instituição aplicadora", declarou.

Em nota, o instituto informou que cada redação é avaliada por pelo menos dois corretores, com possibilidade de uma terceira análise em caso de divergência.

Sisu aceita notas de três edições

A discussão ganha relevância porque, de forma inédita em 2026, o Sistema de Seleção Unificada passou a aceitar notas das edições de 2023, 2024 e 2025.

Especialistas apontam que isso colocou candidatos avaliados sob critérios distintos em disputa direta por vagas.

"É como comparar banana com maçã. A correção de 2025 foi mais rigorosa e subjetiva que nos anos anteriores", avaliou Sérgio Paganim, coordenador de redação do Curso Anglo.

Condições de trabalho dos corretores

A apuração também revelou informações sobre as condições de trabalho. Corretores recebem cerca de R$ 3 por texto e chegam a analisar até 200 redações por dia.

"Foram muitos ruídos de comunicação no processo de formação", relatou a corretora Geralda, que preferiu não revelar o sobrenome completo.

O Cebraspe, responsável pela aplicação do exame, informou que apenas o Inep pode se manifestar sobre o Enem. O instituto não respondeu aos questionamentos sobre remuneração e sobrecarga de trabalho dos avaliadores.

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