O tempo, quando se arrasta em silêncio, costuma transformar ausências em perguntas cada vez mais difíceis de responder. Nas ruas tranquilas onde rotinas familiares antes se repetiam sem alarde, o vazio deixado por portas fechadas e telefones desligados passou a ecoar como um enigma perturbador. Três semanas depois, o que começou como um desaparecimento envolto em aparente normalidade ganhou contornos sombrios e passou a mobilizar autoridades, vizinhos e familiares.

É nesse cenário que o Caso Aguiar completa três semanas neste sábado (14), cercado por indícios cada vez mais graves. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga o desaparecimento de Silvana Germann de Aguiar, de 48 anos, e de seus pais, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, vistos pela última vez entre os dias 24 e 25 de janeiro. O principal suspeito é o policial militar Cristiano Domingues Francisco, ex-marido de Silvana, preso temporariamente após a quebra de sigilo telefônico revelar movimentações consideradas incompatíveis com sua versão inicial. A principal hipótese é de homicídio.

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A POSTAGEM SOBRE ACIDENTE QUE NUNCA ACONTECEU

Silvana desapareceu no dia 24 de janeiro. Na mesma data, uma publicação em seu perfil nas redes sociais informava que ela havia sofrido um acidente em Gramado, na Serra Gaúcha, mas que estava bem.

Para a polícia, o acidente nunca existiu. Os investigadores acreditam que a postagem teve como objetivo criar uma falsa narrativa para justificar sua ausência.

Desde então:

  • O celular de Silvana está desligado;
  • Ela não fez mais contato com ninguém;
  • Seu carro foi encontrado na garagem de casa;
  • A chave estava dentro da residência.

Esse último ponto é considerado especialmente relevante, pois enfraquece a hipótese de viagem voluntária.

OS PAIS DESAPARECERAM AO PROCURAR FILHA

No dia seguinte, 25 de janeiro, os pais saíram para procurar Silvana após serem alertados por vizinhos sobre a publicação. Eles chegaram a ir até uma delegacia para registrar ocorrência. No entanto, encontraram o local fechado. Depois disso, desapareceram. A polícia acredita que o casal sumiu após tentar descobrir o que havia acontecido com a filha.

A QUEBRA DO SIGILO TELEFÔNICO FOI DECISIVA

A investigação teve um avanço significativo após a quebra de sigilo telefônico do policial militar. "Foi possível identificar uma movimentação suspeita em relação ao telefone do Cristiano e também do celular da Silvana", afirmou o delegado Anderson Spier, responsável pelo caso.

Os dados mostraram que o suspeito esteve próximo da família, especialmente dos pais dela, no dia do desaparecimento do casal.

CELULAR ENCONTRADO É DA FILHA

Na última sexta-feira (13), a Polícia Civil confirmou que o celular encontrado nas proximidades da casa dos pais e do mercado da família, em Cachoeirinha, pertence à Silvana. O aparelho, localizado no último dia 7 após denúncia anônima e submetido à perícia, continha fotografias da própria vítima, reforçando sua ligação direta com o caso.

A quebra de sigilo permite identificar: 

  • localização aproximada,
  • horários de uso,
  • conexões entre aparelhos.

Mas não dá acesso ao conteúdo das mensagens, o que exige a senha do celular. Cristiano e a atual companheira tiveram aparelhos apreendidos, mas não forneceram as senhas.

ÁLIBI NÃO COMPROVADO

Em depoimento, o policial apresentou uma versão que não foi confirmada. "Na ocasião, a gente aproveitou e perguntou para ele onde ele estava na hora dos eventos. Ele nos relatou que estava jantando com um casal de amigos em um local em Cachoeirinha. Ele ofereceu a versão de que estava fazendo um trabalho em uma obra da família, mas esse local não tem como comprovar que ele estava lá", explicou o delegado.

Outro detalhe considerado importante. A chave da casa dos pais de Silvana estava com Cristiano. Para justificar esse fato, o suspeito disse que havia recebido a chave do ex-sogro. Versão que, segundo o delegado, foi veementemente contestada pelas demais testemunhas ouvidas pela investigação. "Algumas pessoas que conhecem a rotina dos pais de Silvana disseram ser 'impossível' que eles tivessem deixado as chaves do mercadinho e da residência com o ex-genro", relatou Spier.

VESTÍGIOS DE SANGUE FORAM ENCONTRADOS

A perícia encontrou sangue dentro da casa de Silvana. Segundo o delegado: "Encontraram vestígios diversos de material genético, além de impressões digitais. Sangue também. Todos esses vestígios foram devidamente colhidos por eles e agora seguem para análise no laboratório do IGP", detalhou.

Os vestígios estavam no banheiro e em uma área externa. Apesar disso, Spier esclareceu que a perecia realizada no local não revelou. "Os peritos entenderam que o local estava íntegro. Não tinha nenhuma alteração que sugerisse alguma espécie de luta dentro da residência", afirmou, acrescentado que "a polícia também periciou os carros da família, a casa dos pais e o minimercado da família".

CARTUCHO FOI ENCONTRADO NA CASA DOS IDOSOS

Na casa dos pais, foi encontrado um cartucho de festim. Esse tipo de munição produz barulho e fumaça, não dispara projétil, mas contém pólvora. Apesar disso, a Polícia Civil investiga sua relação com o caso.

CÂMERAS MOSTRAM MOVIMENTAÇÃO SUSPEITA

Imagens de câmaras de monitoramento registraram veículos entrando e saindo da casa no dia do desaparecimento. Com base nesses registros, é possível estabelecer a seguinte linha do tempo:

  • Às 20h34:
  • Um carro vermelho entrou e saiu oito minutos depois.
  • Às 21h28:
  • O carro de Silvana entrou na garagem.
  • Mais tarde, às 23h30:
  • Outro veículo chegou e ficou por 12 minutos.
  • A polícia tenta identificar quem dirigia.

ÁUDIOS MOSTRAM COMPORTAMENTO INCOMUM

Após o desaparecimento, Cristiano enviou áudios a conhecidos demonstrando interesse na resolução do desaparecimento e criticando a aparente lentidão da investigação conduzida pela Polícia Civil. Em um deles, disse: "Aproveitar e ver com o teu parente aí, ver o que eles conseguiram de imagem pra nós aí. Se a gente deixar só por eles, parece que não está progredindo". Ele também comentou: "Eu só estou indo muito na casa da Silvana, todos os dias, porque tem um cachorro e um gato lá."

Cristiano entrou mais de uma vez nas casas. Também enviou foto do interior da residência dos pais dela. E foi ele quem registrou o primeiro boletim de desaparecimento.

RELAÇÃO DIFÍCIL E POSSÍVEL MOTVAÇÃO

A polícia apura se o histórico do relacionamento pode ter relação com o caso. O casal tem um filho de 9 anos. Recentemente, Silvana denunciou o ex ao Conselho Tutelar. Ela relatou que ele desrespeitava restrições alimentares do menino, que tem intolerância à lactose.

Após o desaparecimento, o pai procurou o Conselho Tutelar para comunicar o desaparecimento de Silvana e informa que a criança ficou com a família paterna.

PM FOI PRESO E AFASTADO

Cristiano está preso temporariamente desde a última quarta-feira (11). A prisão pode durar até 30 dias. A Brigada Militar informou que ele foi afastado, e que a Corregedoria acompanha o caso.  

A defesa do policial afirmou que ainda não teve acesso aos autos do processo. Em nota, o advogado Jeverson Barcellos declarou que, sem conhecimento formal do conteúdo da investigação, não é possível apresentar posicionamento detalhado. Segundo ele, o investigado exerce o direito constitucional de permanecer em silêncio até que os elementos do inquérito sejam disponibilizados.

FAMÍLIA ERA CONHECIDA E RESPEITADA

Silvana trabalhava com os pais, Eles tinham um pequeno mercado. Ela era filha única. Os pais eram descritos como tranquilos, discretos e queridos pela vizinhança.

Nos últimos dias, familiares e vizinhos fizeram protestos em frenda a casa dos Aguiar pedindo celeridade na investigação, especialmente nos esforços para encontrar os desaparecidos, estejam eles vivos ou mortos.

O QUE A POLÍCIA AINDA TENTA DESCOBRIR

A investigação aguarda:

  • resultados do DNA;
  • análise dos celulares;
  • identificação dos veículos;
  • análise de câmeras;
  • novas testemunhas.

O MISTÉRIO CONTINUA

Três semanas depois, nenhuma das três vítimas foi encontrada. Não há confirmação oficial de mortes. Mas os indícios do crime aumentam.

E, enquanto a investigação avança entre provas técnicas, contradições e silêncios, o Caso Aguiar permanece como uma história suspensa. Marcada pela ausência de uma família inteira e pela expectativa de respostas que ainda não chegaram.

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