Existem tragédias que não começam com um disparo, mas com um gesto aparentemente banal. Às vezes, basta um interruptor desligado, um corredor mal iluminado ou uma falha elétrica para que o cotidiano perca sua inocência e revele um plano oculto. Nos bastidores silenciosos de um condomínio, onde vizinhos dividem paredes e rotinas, a confiança pode esconder armadilhas que só se revelam tarde demais.
Foi justamente a partir de uma queda de energia que se desenrolou o assassinato da corretora de imóveis Daiane Alves Souza, de 43 anos. A Polícia Civil de Goiás concluiu que o síndico Cleber Rosa de Oliveira arquitetou uma emboscada ao desligar deliberadamente a luz do apartamento da vítima, atraindo-a até o subsolo do prédio, onde já a aguardava para atacá-la.
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'AÇÃO SORRATEIRA"
A conclusão foi apresentada em coletiva após o encerramento do inquérito. Segundo os investigadores, o crime foi minuciosamente planejado e executado em uma "ação sorrateira". Cleber estava encapuzado, usando luvas e com o carro previamente posicionado no almoxarifado, com a capota aberta, preparado para transportar o corpo sem levantar suspeitas.
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Sem imaginar que estava sendo atraída para uma armadilha, Daiane decidiu registrar o problema elétrico com o celular. As imagens recuperadas mostram a corretora dentro do elevador e, em seguida, diante do painel de energia no subsolo. Foi ali que, segundos depois, ela foi surpreendida. "Daiane foi testemunha da própria morte", afirmaram os investigadores.
A gravação foi interrompida no momento em que ela sofreu um golpe pelas costas. O celular foi descartado em uma caixa de esgoto, onde permaneceu por 41 dias até ser localizado e restaurado pela perícia, tornando-se peça-chave para a reconstituição do crime.
EXECUÇÃO OCORREU FORA DO PRÉDIO
A perícia também desmentiu um dos principais pontos da versão apresentada pelo síndico. Embora Daiane tenha sido morta com dois tiros na cabeça, testes técnicos indicaram que os disparos não ocorreram no subsolo.
Os peritos simularam tiros no mesmo local, horário e dia da semana e concluíram que o barulho seria claramente audível na portaria. Nenhum morador ou funcionário relatou ter ouvido disparos naquela noite. A conclusão é que Cleber deixou a vítima inconsciente no prédio e a levou para outro local, onde a executou.
O corpo foi encontrado em 28 de janeiro, às margens de uma estrada em Caldas Novas, após o próprio síndico confessar o crime e indicar o local aos policiais.
DESAPARECIMENTO APÓS DESCIDA AO SUBSOLO
Daiane desapareceu em 17 de dezembro, depois de descer para verificar a falta de energia em seu apartamento. A última imagem dela com vida foi registrada pelas câmeras do prédio, dentro do elevador, descendo em direção ao subsolo. O caso gerou forte comoção e mobilizou buscas por semanas, até a confissão do síndico.
Segundo a polícia, o crime ocorreu no mesmo dia do desaparecimento. Cleber alegou que houve um "atrito" entre os dois naquele momento, já que mantinham um histórico de conflitos no condomínio. A investigação, porém, concluiu que a ação foi premeditada e não resultado de uma discussão impulsiva.
FILHO DO SÍNDICO DEVE SER SOLTO
Durante as investigações, o filho do suspeito, Maicon Douglas de Oliveira, chegou a ser preso sob suspeita de participação. Ele teria ajudado o pai na compra de um celular novo, registrado em seu nome.
No entanto, com o avanço das apurações, a polícia concluiu que ele não participou do assassinato. O próprio Cleber assumiu ter agido sozinho ao chegar à delegacia em Goiânia. O inquérito foi encaminhado à Justiça com o pedido de soltura de Maicon.
CRIME FRIO E PREMEDITADO
Para os investigadores, não restam dúvidas sobre a frieza e o planejamento.
Ações de Cleber:
- desligou a energia para atrair a vítima;
- aguardou escondido e encapuzado;
- atacou Daiane de surpresa;
- removeu o corpo do local;
- descartou o celular para eliminar provas.
O que ele não previu foi que a própria vítima deixaria, sem saber, o registro que ajudaria a contar os últimos minutos de sua vida.
