Nem sempre palavras difíceis são necessárias para transmitir com clareza a mensagem desejada. Foi justamente essa armadilha que custou caro a um candidato na segunda fase da Fuvest 2026, vestibular da Universidade de São Paulo.
Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, teve sua redação zerada e foi desclassificado do processo seletivo para o curso de Direito. Inconformado, ele recorreu à Justiça para exigir uma explicação.
Leia também:
- Instituto Butantan irá produzir remédio contra câncer para o SUS
- Homem de 63 anos morre após ser atropelado por menina de 12 anos
O tom, considerado exageradamente erudito, se manteve ao longo de todo o texto. Entre os trechos que mais chamaram atenção estão:
- "Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo";
- "Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao 'modus vivendi' da superestrutura cívico-identitária";
- "Nessa sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes."
O candidato chegou a publicar relatos sobre o caso no X, mas apagou tudo após receber uma enxurrada de críticas e piadas relacionadas ao estilo da escrita.
Posicionamento da Fuvest
Segundo a Fuvest, o motivo da nota zero foi objetivo: o texto não abordou o tema definido pela frase temática, que era "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado".
Em nota, a instituição afirmou que "não há indícios suficientes que demonstrem a compreensão do tema e desenvolvimento, o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual."
A organização também informou que, antes de receber a nota zero, a redação passou por mais de três avaliações independentes — o que, segundo as regras do vestibular, inviabiliza qualquer pedido de revisão.
Candidato recorre na Justiça e aguarda resposta do reitor
Luis Henrique não aceitou a decisão em silêncio. Em entrevista, o jovem contou que recebeu apenas um retorno genérico ao questionar a eliminação e, ao lado da mãe — que é advogada —, entrou com pedido de mandado de segurança:
"Ainda estou aguardando uma resposta do reitor da USP. Só queria entender minha nota", conta ele.
O candidato também defendeu seu estilo de escrita, argumentando que, ao longo dos anos, nunca recebeu indicação sobre o excesso de rebuscamento em seus textos.
Para ele, textos de candidatos ao curso de Direito costumam ser densos em conteúdo e vocabulário — e o dele não seria exceção.
Professores analisam a redação e concordam com o zero
Quando avaliado por diferentes professores de cursinhos pré-vestibulares, todos chegaram à mesma conclusão: a nota estava correta.
Para Marina Rocha, professora do Curso Skued e do Curso Raio-X, o problema central foi estrutural. Segundo ela, o candidato elaborou construções sintáticas extremamente confusas em razão do alto teor de formalidade, o que comprometeu a compreensão do texto.
Isso representa uma falha grave em contexto de vestibular. Já Sérgio Paganim, professor e coordenador de Redação do Curso Anglo, foi ainda mais direto ao apontar os motivos pelos quais considera o texto um exemplo típico de nota zero.
Segundo ele:
- A falta de conexão de ideias ficou clara porque autores e conceitos se encadeiam entre si, mas nunca se vinculam claramente ao tema proposto;
- Ausência de posicionamento: o texto funciona como uma colagem de referências intelectuais, sem que nenhuma delas esteja a serviço de um argumento sobre o perdão condicionado ou limitado.
Segundo os profissionais, o caso escancarou um equívoco comum entre vestibulandos: confundir complexidade vocabular com profundidade argumentativa.
Quer receber mais notícias do Brasil e do mundo? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!
É reforçado que, no vestibular, o que conta não é o tamanho das palavras, mas a clareza e a consistência das ideias que elas carregam.
Leia o texto na íntegra:
Intentona pela Reconstituição da Interioridade
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana - de Pierre Bourdieu - a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.
Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno - era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.
Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes.
