Às vezes, o que à primeira vista parece ser apenas um drama pessoal acaba se transformando em algo muito mais complexo, quase como um tabuleiro de xadrez, onde cada gesto e cada palavra são calculados para moldar uma narrativa conveniente. As situações se sobrepõem, os atores improvisam e até aqueles que parecem meros coadjuvantes podem, sem perceber, ser peças fundamentais em um jogo de manipulação cuidadosamente arquitetado.

É exatamente essa suspeita que a Polícia Civil de São Paulo investiga em relação ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, que, segundo as autoridades, pode ter usado o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan como uma "peça de xadrez" para compor sua versão sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, 32. Rosa Neto está preso e é réu por feminicídio e fraude processual, crimes que nega.

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ESTRATEGISTA E MANIPULADOR

O delegado Lucas de Souza Lopes, responsável pelo caso, descreveu Rosa Neto como "estrategista ao extremo" e "manipulador". Segundo ele, o tenente-coronel sabia que a presença de Cogan, pelo cargo e pela relevância institucional, poderia passar a impressão de influência sobre a ocorrência. O desembargador, no entanto, não se apresentou como magistrado no momento e só revelou sua identidade funcional ao final da ocorrência, após ser questionado por policiais militares que registravam o caso.

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Câmeras corporais da PM registraram Cogan visivelmente constrangido e relutante em entrar no apartamento, mas ele acabou cedendo à pressão da "cena criada pelo tenente-coronel". Durante o tempo em que permaneceu no local, o desembargador não tocou em nenhum objeto, não interveio na cena do crime e limitou-se a ouvir a versão apresentada por Rosa Neto, que aparentemente buscava demonstrar influência e poder de maneira fictícia. "Ele era mais uma peça do xadrez que o tenente-coronel estava criando para a história dele", afirmou Lopes ao podcast True Crime, do SBT News.

RELEMBRE O CASO

O episódio ocorreu após Gisele ser encontrada com um disparo na cabeça em seu apartamento, onde morava com o marido em São Paulo. Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, mas a morte foi confirmada às 12h04 do mesmo dia. Rosa Neto relatou que, por volta das 7h, teria entrado no quarto da esposa para anunciar a intenção de separação, afirmando ainda amá-la, mas reconhecendo que a relação não estava funcionando.

Segundo ele, a soldado teria reagido de forma exaltada, fechando a porta, e ele seguiu para o banho. Minutos depois, teria ouvido um barulho que interpretou como uma porta batendo e, ao verificar, encontrou Gisele caída e segurando a arma de fogo, acionando em seguida o resgate e a Polícia Militar, além de ligar para o amigo desembargador.

RELACIONAMENTO "EXTREMAMENTE CONTURBADO"

A mãe da vítima descreveu à polícia um relacionamento "extremamente conturbado", acusando Rosa Neto de comportamento abusivo e violento. Segundo ela, o tenente-coronel proibiu a filha de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrar rigorosamente tarefas domésticas. Inicialmente registrado como suicídio consumado, o caso foi reclassificado pela Polícia Civil como "morte suspeita". A ocorrência é investigada pelo 8º Distrito Policial (Brás) e pela Corregedoria da Polícia Militar.

Rosa Neto foi preso em 18 de março em São José dos Campos e desde então está detido no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. A Justiça negou pedido liminar de liberdade provisória. O corpo de Gisele foi exumado em 6 de março para nova perícia, revelando lesões contundentes na face e na região cervical, compatíveis com pressão de unhas e escoriações. Em 9 de março, o processo foi encaminhado à Vara do Tribunal do Júri, responsável por crimes contra a vida, e está sob sigilo desde o dia seguinte.

O QUE DIZ O DESEMBARGADOR

O desembargador Cogan afirmou ter sido chamado "como amigo, após os fatos, pelo coronel, anunciando ocorrência do suicídio", e sua defesa informou que eventuais esclarecimentos serão prestados à Polícia Judiciária. O Conselho Nacional de Justiça abriu investigação para apurar a conduta do magistrado, por meio de um Pedido de Providências registrado em 19 de março junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo.

A defesa de Rosa Neto, liderada pelo advogado Eugênio Malavasi, declarou que todas as afirmações da polícia serão contestadas na ação penal e que o militar colabora com as autoridades desde o início das investigações. Em entrevista à Record TV, Rosa Neto afirmou manter "a consciência tranquila" e negou envolvimento no feminicídio: "As pessoas têm inventado coisas, estou sendo atacado impiedosamente por inverdades. Não tenho nada para inventar ou mentir, trabalho com a verdade".

CANAIS DE DENÚNCIA

Autoridades reforçam que casos de violência podem ser denunciados pelo telefone 180, pelo Disque 100, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). Em caso de flagrante, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Vítimas em situação de risco podem solicitar medidas protetivas de urgência, previstas pela Lei Maria da Penha.

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