Em meio ao constante embate entre laudos e narrativas que costumam marcar casos de grande repercussão, a busca por respostas ganha novos contornos quando diferentes olhares técnicos passam a disputar espaço dentro de uma mesma investigação. É nesse cenário que decisões judiciais podem redefinir estratégias e ampliar o campo de interpretação sobre os fatos.
A autorização da Justiça para que a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, indique um perito assistente representa justamente esse novo capítulo no caso que apura a morte da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos. A partir de agora, o especialista poderá acompanhar de perto a produção das provas técnicas, participando das perícias e apresentando análises próprias ao longo do processo.
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A medida abre caminho para que a defesa desenvolva uma leitura paralela às conclusões oficiais, em um inquérito já marcado por controvérsias, mensagens apagadas e dúvidas sobre o que ocorreu no interior do apartamento do casal, localizado no Brás, região central de São Paulo. Foi ali, em 18 de fevereiro, que a policial militar foi encontrada com um tiro na cabeça.
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Procurado na segunda-feira (30), o advogado Eugênio Malavasi, responsável pela defesa do oficial, não foi localizado pela reportagem. O espaço permanece aberto para posicionamento.
PERITO PASSA A ACOMPANHAR PERÍCIAS
Com a decisão judicial, o perito particular Fabiano Abucarub passa a ter autorização para acompanhar exames periciais, sugerir linhas de análise e elaborar pareceres técnicos. Sua atuação não substitui a dos peritos oficiais, mas funciona como um reforço estratégico da defesa, que poderá contestar ou corroborar interpretações sobre as evidências reunidas.
O momento é considerado crucial, já que os laudos técnicos têm papel central na tentativa de reconstruir a dinâmica da morte da policial. Abucarub, conforme sua apresentação profissional, acumula experiência em mais de 2 mil processos no Tribunal de Justiça do Paraná e cerca de 1.300 na Justiça Federal, incluindo aproximadamente 500 casos envolvendo homicídios, crimes sexuais e acidentes.
MENSAGENS APAGADAS E RECUPERAÇÃO DE PROVAS
Entre os elementos já incorporados ao inquérito, um dos mais relevantes diz respeito à recuperação de mensagens apagadas do celular de Gisele. Segundo a perícia, diálogos deletados teriam sido restaurados e passaram a integrar o conjunto de provas analisadas.
As conversas indicam que a soldado cogitava o fim do relacionamento e chegou a mencionar a possibilidade de formalizar o divórcio. Em uma das mensagens, ela afirma que o marido poderia “pedir” a separação, conteúdo que contrasta com a versão inicial apresentada pelo oficial, que descrevia o relacionamento como estável.
Por outro lado, o tenente-coronel sustenta que Gisele não aceitava o término proposto por ele e que teria cometido suicídio. No entanto, o teor das mensagens recuperadas sugere um ambiente de desgaste entre o casal nos dias anteriores à morte.
CONTRADIÇÕES NO DEPOIMENTO DO OFICIAL
Outro ponto de atenção na investigação são as inconsistências identificadas no depoimento de Geraldo Neto. De acordo com informações já apresentadas à Justiça, há divergências entre sua versão e os elementos técnicos reunidos até o momento.
Aspectos como a dinâmica do disparo, a movimentação dentro do apartamento e o comportamento do oficial após o ocorrido estão sendo minuciosamente analisados. Investigadores apontam que algumas situações não se encaixam na hipótese de suicídio defendida pela defesa.
Essas contradições vêm sendo confrontadas com laudos, imagens e vestígios coletados no local, reforçando o caráter técnico da apuração.
CASO SEGUE SOB INVESTIGAÇÃO
Preso desde o dia 18, Geraldo Neto é investigado sob suspeita de feminicídio e fraude processual. Desde o início, ele afirma que a esposa tirou a própria vida. Versão que vem sendo progressivamente questionada com o avanço das investigações.
Paralelamente, o comando da Polícia Militar avalia a possibilidade de demissão ou expulsão do oficial, caso sejam comprovadas tentativas de interferência no inquérito ou eventual responsabilidade pelo crime.
A entrada do perito da defesa tende a intensificar o embate em torno das provas. Enquanto a investigação busca consolidar uma narrativa consistente sobre o ocorrido, a defesa passa a atuar de forma mais incisiva na análise técnica, ampliando a disputa de interpretações que pode ser decisiva para o desfecho do caso.
