Quem passa pelo D&D Shopping, na zona sul de São Paulo, encontra um espetáculo incomum: clientes disputam produtos de casa com descontos de até 70%.

A cena reflete o colapso de uma das maiores redes de móveis e decoração do país: a Tok&Stok no. A rede colocou todo o estoque em liquidação, com descontos que variam de 50% a 70% em itens para casa por conta do fechamento da unidade. Além disso, o movimento de clientes na unidade cresceu de forma expressiva nos últimos dias, com consumidores em busca das ofertas antes do encerramento definitivo.

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Essa unidade não é a única afetada. A Tok&Stok encerrou as operações da loja do bairro Pompeia e da unidade do Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista, que funcionava em formato reduzido.

Portanto, a capital paulista perdeu três pontos de venda da marca em poucas semanas.

Bahia perde unidade

A loja da Tok&Stok no Salvador Shopping, na Bahia, fechou as portas no último dia 16.

Apesar de buscar oferecer um conceito mais moderno da marca na capital baiana, a operação não resistiu à crise financeira do grupo controlador.

Recuperação judicial e dívida bilionária

O Grupo Toky, controlador tanto da Tok&Stok quanto da Mobly, entrou recentemente com pedido de recuperação judicial. O grupo informou ter dívida superior a R$ 1 bilhão.

Além disso, a empresa alegou deterioração da situação financeira e a necessidade de preservar a operação como justificativa para o pedido. Esse colapso não aconteceu de repente.

Em 2023, a rede já havia fechado sete lojas espalhadas por diferentes estados:

  • São Paulo;
  • Rio de Janeiro;
  • Pernambuco;
  • Ceará;
  • Rio Grande do Sul;
  • Paraná;
  • Distrito Federal.

Na época, a varejista contratou uma consultoria especializada para reestruturar uma dívida avaliada em R$ 600 milhões. Contudo, as medidas não foram suficientes para reverter o quadro.

Os fatores que levaram ao colapso

A crise da Tok&Stok tem raízes em diferentes frentes. Entre os principais problemas, estão:

  • Aumento do endividamento;
  • Mudanças de controle societário;
  • Dificuldades de integração com a Mobly;
  • Disputas entre investidores.

Além disso, o ambiente macroeconômico piorou de forma consistente. A própria empresa atribuiu parte dos problemas aos juros elevados, ao crédito restrito e ao maior comprometimento da renda das famílias.

Esses fatores afetam principalmente bens considerados adiáveis, como móveis e itens de decoração. Portanto, as vendas caíram justamente quando os custos permaneceram altos.

O peso da logística no setor de móveis

Há ainda um problema estrutural que penaliza toda a cadeia de móveis e decoração: a logística.

Sofás, armários e mesas exigem armazenagem maior, transporte especializado e entregas mais complexas do que produtos convencionais. Por isso, o custo fixo do setor é elevado, mesmo quando as vendas recuam.

Muitas redes adotaram nos últimos anos o modelo de lojas-showroom, com estoque centralizado em grandes centros de distribuição.

Esse formato reduz o espaço físico nas lojas, mas torna a operação mais vulnerável a falhas na cadeia de reposição. No caso da Tok&Stok, essa combinação de custos altos e vendas em queda acelerou o desequilíbrio financeiro.

O fim do boom pós-pandemia

A pandemia impulsionou o setor de casa e decoração entre 2020 e 2021. Com mais tempo em casa, os consumidores investiram em reformas, móveis e conforto. No entanto, esse ciclo se encerrou rapidamente com a reabertura da economia.

Depois da pandemia, parte do consumo migrou para viagens e serviços. Ao mesmo tempo, a inflação e os juros elevados passaram a limitar as compras parceladas.

Empresas que expandiram operações ou assumiram dívidas apostando na continuidade daquele ritmo enfrentaram um ajuste severo.

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No caso do Grupo Toky, as transformações estruturais da Tok&Stok e da Mobly ocorreram justamente durante essa desaceleração, o que tornou a recuperação ainda mais difícil.

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