O avanço de um processo criminal costuma revelar não apenas os embates jurídicos entre acusação e defesa, mas também os contornos de um caso que mobiliza a opinião pública. Em São Paulo, a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana segue cercada por disputas judiciais, perícias e versões conflitantes que mantêm o caso sob atenção constante das autoridades.
A Justiça paulista decidiu manter o andamento da ação penal contra o coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de feminicídio e fraude processual pela morte da esposa. A magistrada responsável pelo caso rejeitou o pedido de "absolvição sumária" apresentado pela defesa do policial militar da reserva e determinou a continuidade da fase de instrução do processo.
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JUÍZA VÊ NECESSIDADE DE APROFUNDAR ANÁLISE DAS PROVAS
A decisão foi assinada pela juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, que considerou prematura qualquer absolvição antes da conclusão da produção de provas. Segundo a magistrada, os elementos reunidos até agora ainda precisam ser examinados de forma mais ampla durante a instrução processual. De acordo com o entendimento da Justiça, somente após os depoimentos, perícias e demais diligências será possível avaliar de forma completa os fatos relacionados à morte da soldado.
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A juíza também rejeitou a tentativa da defesa de invalidar informações oriundas do IPM (Inquérito Policial Militar). Na avaliação dela, não houve compartilhamento irregular de provas, mas apenas o envio de informações preliminares que auxiliaram o Ministério Público na formação de entendimento sobre o caso. Outro ponto afastado pela magistrada foi o argumento de suposta incompetência da Justiça comum para analisar o crime. A decisão destacou que não houve denúncia formal nem produção de provas na Justiça Militar, o que inviabiliza o questionamento apresentado pelos advogados do coronel.
AUDIÊNCIAS JÁ TÊM CRONOGRAMA DEFINIDO
A Justiça marcou cinco dias de audiências para ouvir testemunhas, policiais, peritos e familiares da vítima. O cronograma começa em 29 de junho e termina em 3 de julho, data reservada para o interrogatório de Geraldo Leite Rosa Neto. Entre as pessoas convocadas para depor estão o delegado responsável pela investigação, peritos criminais, policiais militares, testemunhas protegidas, os pais de Gisele e a filha da soldado, que deverá prestar depoimento especial.
A magistrada determinou ainda que o coronel seja formalmente intimado para comparecer a todas as etapas da audiência. Algumas testemunhas poderão ser ouvidas virtualmente. Além disso, a Justiça manteve apreendidos os celulares ligados ao caso e solicitou novos esclarecimentos técnicos ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal após questionamentos levantados pela perícia da defesa.
DEFESA CONSIDERA DECISÃO "NATURAL"
Ao comentar a decisão, o advogado Eugênio Malavasi afirmou que não faria observações detalhadas sobre a medida judicial por se tratar de uma decisão interlocutória tomada ainda no decorrer do processo. Segundo ele, o pedido de absolvição sumária integra a estratégia defensiva comum nesta fase processual e o indeferimento era esperado neste momento da ação penal.
Já José Miguel Júnior Silva, advogado da família da soldado Gisele, declarou que os parentes da vítima aguardavam esse entendimento da Justiça. Para ele, a próxima etapa será decisiva para definir se o coronel irá a julgamento pelo Tribunal do Júri.
CASO GANHOU NOVOS RUMOS APÓS SUSPEITAS
Gisele Alves Santana morreu em 18 de fevereiro após ser atingida por um disparo na cabeça dentro do apartamento onde vivia com o marido, no bairro do Brás, região central da capital paulista. Ela chegou a ser levada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu.
Inicialmente, a ocorrência foi registrada como suicídio consumado. No entanto, o caso passou a ser tratado como morte suspeita após o depoimento da mãe da policial, que descreveu o relacionamento da filha como abusivo e marcado por comportamentos violentos e controladores atribuídos ao coronel.
Segundo o depoimento, o policial proibia Gisele de usar itens como batom, salto alto e perfume, além de impor cobranças excessivas relacionadas às tarefas domésticas.
CONTRADIÇÕPES E PERÍCIA AMPLIARAM INVESTIGAÇÃO
Em depoimento à polícia, Geraldo afirmou que, na manhã do ocorrido, comunicou à esposa a intenção de se separar. Segundo a versão apresentada por ele, Gisele teria se exaltado após a conversa e, pouco depois, ele ouviu um barulho enquanto tomava banho.
O coronel declarou ter encontrado a companheira caída no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e um amigo desembargador. No entanto, as investigações ganharam novos elementos após a exumação do corpo de Gisele, realizada em março. A perícia identificou lesões na região do rosto e do pescoço compatíveis com agressões provocadas por dedos e unhas.
Também vieram à tona mensagens extraídas do celular do policial militar. Os conteúdos apontariam episódios de humilhação, ofensas e violência psicológica contra a esposa. Em um dos trechos, Geraldo descreveu como acreditava que deveria funcionar um relacionamento e afirmou tratar Gisele como "todo macho alfa trata a sua esposa".
STJ DEFINIU COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM
Em abril, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que o caso deverá tramitar na Justiça comum, encerrando a disputa sobre qual esfera seria responsável pelo julgamento. A decisão do ministro Reynaldo Soares da Fonseca definiu que o processo ficará sob responsabilidade da 5ª Vara do Júri de São Paulo, especializada em crimes dolosos contra a vida, incluindo homicídio e feminicídio.
Em entrevistas anteriores, o coronel negou envolvimento na morte da esposa e afirmou estar sendo alvo de acusações falsas. Segundo ele, sua consciência permanece tranquila diante das investigações.
CANAIS DE DENÚNCIA CONTRA VIOLÊNCIA
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, serviço gratuito com funcionamento 24 horas.
Também é possível registrar denúncias pelo Disque 100 ou pelo WhatsApp oficial do serviço: (61) 99656-5008.
