Representantes das famílias das 62 vítimas do acidente com o voo 2283 da Voepass tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave antes da tragédia. O encontro ocorreu em Campinas, em São Paulo, na terça-feira (30), com a presença dos investigadores responsáveis pelo caso.

O acidente foi registrado em 9 de agosto de 2024, quando a aeronave caiu sobre um condomínio residencial em Vinhedo, no interior paulista. Todos os 58 passageiros e os quatro tripulantes morreram no impacto.

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Os documentos revelaram detalhes sobre o comportamento da tripulação nos momentos finais do voo e reforçam a expectativa de indiciamentos. 

A transcrição mostrou que os pilotos mencionaram a palavra "gelo" durante o voo, mas não adotaram nenhuma providência para acionar o sistema antigelo da aeronave.

Essa omissão chocou os familiares presentes na reunião. Fátima Albuquerque, presidente da associação dos familiares e mãe da médica Arianne Albuquerque, uma das vítimas, descreveu a situação com indignação.

"O avião deu todos os sinais possíveis e eles não fizeram nada. Eles sabiam que estavam viajando no perigo", afirmou ela.

Além disso, Fátima destacou que os dois profissionais tinham conhecimento dos problemas da aeronave antes da decolagem.

"Na transcrição, pudemos ver que eles diziam 'gelo', 'gelo', mas não tentaram fazer nada", completou.

Os familiares optaram por ler apenas o texto da transcrição, sem ouvir as gravações de áudio.

Indiciamentos devem ocorrer em até 30 dias

Além da transcrição, as famílias também tiveram acesso ao laudo pericial elaborado pela Polícia Federal. O advogado Luciano Katarinhuk informou que o documento serve de base para a fase final do inquérito.

Segundo ele, o relatório tem mais de 200 páginas e reúne elementos suficientes para embasar responsabilizações criminais.

"O que sabemos é que haverá indiciamentos no caso da Voepass. Os familiares vão ter uma resposta para que isso nunca mais aconteça", declarou o advogado.

A expectativa é de que a PF conclua a investigação nos próximos 30 dias. Depois disso, o relatório será encaminhado ao Ministério Público Federal. Os nomes dos possíveis indiciados, porém, ainda não foram divulgados.

A queda do avião em agosto de 2024

O ATR 72-500 havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. A aeronave perdeu altitude de forma abrupta e caiu sobre um condomínio residencial em Vinhedo.

Os dados do Flight Radar indicaram que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e desceu para 4.000 pés em apenas dois minutos, às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido.

Isso representa uma queda de cerca de 4.000 metros em tempo mínimo. O impacto aconteceu aproximadamente 20 minutos antes do pouso previsto.

Todas as mortes foram instantâneas, por politraumatismo, e o avião só explodiu após o choque com o solo. O reconhecimento dos corpos foi feito por meio de análise de arcadas dentárias, DNA e impressões digitais.

Fadiga dos pilotos também está sob investigação

Um relatório do Ministério do Trabalho e Emprego apontou que a fadiga da tripulação pode ter contribuído para o acidente. Segundo o documento, as escalas de trabalho não previam tempo suficiente de descanso para os pilotos.

Além disso, a auditoria concluiu que a Voepass não realizava controle efetivo da jornada de trabalho, descumpria o tempo de descanso previsto na Lei dos Aeronautas e violava cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho voltadas à prevenção da fadiga.

As irregularidades resultaram em dez autos de infração, com multas que somam aproximadamente R$ 730 mil.

A empresa também foi notificada por não recolher mais de R$ 1 milhão ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço dos trabalhadores.

Empresa perdeu certificação e entrou em recuperação judicial

As consequências para a Voepass foram graves após o acidente. Entenda a ordem cronológica dos principais eventos que marcaram o colapso da empresa:

  • Em março de 2025, a Agência Nacional de Aviação Civil suspendeu todas as operações aéreas da companhia;
  • Em abril de 2025, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial;
  • Em junho de 2025, a ANAC cassou definitivamente a certificação de operação da Voepass.

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Fátima Albuquerque resumiu o sentimento dos familiares ao cobrar responsabilização de quem permanece vivo.

"Agora, a gente quer que os outros que estão vivos paguem na Justiça. Tudo era feito de forma errada naquela empresa. O avião não tinha condições de viajar para nenhum lugar que tivesse frio, com gelo", disse ela.

A maior parte das vítimas era natural de Cascavel, cidade de origem do voo.

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