As buscas por sobreviventes após os terremotos que devastaram a Venezuela ganharam um novo capítulo no domingo (28). O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, informou que cinco pessoas foram resgatadas com vida graças à atuação conjunta de equipes da Colômbia, dos Estados Unidos e da Suíça. Entre os sobreviventes está um bebê de apenas seis meses. Apesar dos resgates, a Organização das Nações Unidas estima que cerca de 50 mil pessoas continuam desaparecidas.
A tragédia começou na última quarta-feira (24), quando dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 atingiram o país em um intervalo de poucos segundos. Em meio à crise política e econômica que já afetava a Venezuela, os tremores provocaram um dos maiores desastres naturais da história recente da América Latina.
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NÚMERO DE VÍTIMAS CONTINUA AUMENTANDO
O balanço oficial divulgado pelo governo venezuelano ao meio-dia de sábado aponta 1.430 mortos e 3.238 feridos. As autoridades ainda não informaram oficialmente quantas pessoas permanecem desaparecidas, mas a ONU calcula que aproximadamente 50 mil moradores ainda não foram localizados. Um cadastro criado por familiares e voluntários na internet aponta um número ainda maior de desaparecidos.
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Na capital, Caracas, enormes painéis eletrônicos exibem fotografias de pessoas procuradas por parentes, enquanto bairros inteiros permanecem reduzidos a montanhas de concreto.
CORRIDA CONTRA O TEMPO MOBILIZA EQUIPES DE VÁRIOS PAÍSES
Milhares de socorristas seguem trabalhando ininterruptamente nas áreas atingidas. Com o reforço de brigadas internacionais, cães farejadores percorrem os escombros em busca de sinais de vida, enquanto helicópteros e aeronaves militares americanas Osprey V-22 dão suporte às operações.
Mesmo com o aumento das equipes, moradores reclamam da demora na resposta oficial. "Não temos apoio para retirar nossos familiares. Sozinhos, não conseguimos", afirmou Héctor Aguilera, de 60 anos, à AFP.
Quatro parentes dele ficaram soterrados após o desabamento de um edifício. Dois foram encontrados sem vida. "Sabemos que eles morreram, mas seguimos aqui esperando uma resposta das autoridades. Não temos mais esperança. O que me restam são as lembranças", lamentou.
GOVERNO ANUNCIA NOVOS RESGATES
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, informou que 33 pessoas foram retiradas com vida dos escombros apenas no sábado. Nas redes sociais, ela divulgou imagens do resgate de um menino de 11 anos.
Rodríguez ocupa interinamente a Presidência desde janeiro, após a queda de Nicolás Maduro durante uma incursão militar liderada pelos Estados Unidos, país que atualmente coordena parte da ajuda humanitária internacional destinada ao território venezuelano.
LA GUAIRA REVIVE CENÁRIO DE DESTRUIÇÃO
Uma das áreas mais castigadas é La Guaira, cidade localizada a cerca de 40 quilômetros de Caracas. Prédios inteiros desabaram, transformando a paisagem em um cenário comparado por moradores a uma zona de guerra. A cidade já havia enfrentado uma tragédia semelhante em 1999, quando chuvas e deslizamentos deixaram mais de 10 mil mortos. Imagens aéreas mostram edifícios completamente achatados e outros gravemente comprometidos, sem condições de recuperação.
Segundo a ONU, quase sete milhões de pessoas podem ser afetadas pela tragédia, enquanto os prejuízos econômicos podem chegar a 6,7 bilhões de dólares — cerca de R$ 34,6 bilhões, valor equivalente a aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
"NOS VIMOS CERCADOS PELOS MORTOS"
Para quem vive na região, a destruição impressiona até mesmo quem já enfrentou outras emergências. "Isso é algo de outro mundo. Ver prédios desabando era uma cena que só existia nos filmes", afirmou José Contreras, segurança de um ambulatório improvisado como necrotério.
"Nos vimos cercados pelos mortos. Muitas pessoas que conheço já não estão mais aqui, relatou.
RESTRIÇÕES DO GOVERNO GERAM CRÍTICAS
Em meio às operações de resgate, o governo determinou a militarização de La Guaira e passou a exigir autorizações para o acesso de médicos, voluntários e socorristas às áreas mais atingidas.
A medida provocou críticas entre integrantes das equipes de emergência. "Uma permissão para salvar vidas. É inacreditável", criticou o socorrista Carlos Itriago, de 27 anos.
As autoridades também restringiram a circulação da imprensa internacional, permitindo o acesso apenas a áreas previamente definidas sob a justificativa de reduzir riscos epidemiológicos.
PAPA MANIFESTA SOLIDARIEDADE ÀS VÍTIMAS
Durante a oração do Angelus neste domingo, o papa Leão XIV prestou homenagem às equipes que atuam nas operações de resgate.
O pontífice agradeceu e incentivou "todos os que trabalham com generosidade nas tarefas de busca e assistência" às vítimas da tragédia.
SAQUES E FALTA DE AJUDA AUMENTAM TENSÃO
Enquanto voluntários chegam de diversos países, moradores também relatam episódios de furtos e saques nas áreas devastadas. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra um homem expulsando de sua residência um militar e outro funcionário, acusados de revirar seus pertences.
Em alguns bairros, a ajuda humanitária ainda não chegou. Familiares de desaparecidos chegaram a bloquear uma rodovia em La Guaira para cobrar assistência, mas afirmam que os comboios passaram sem realizar paradas.
AJUDA INTERNACIONAL SE INTENSIFICA
O aeroporto internacional que atende Caracas retomou parcialmente as operações e voltou a receber aviões cargueiros transportando suprimentos enviados pelos Estados Unidos.
Segundo uma autoridade americana ouvida pela AFP, um navio anfíbio da Marinha permanece na costa venezuelana coordenando parte das operações aéreas. Washington anunciou o envio de US$ 150 milhões em ajuda humanitária, além de dois navios de guerra, helicópteros e aeronaves de transporte.
De acordo com Delcy Rodríguez, 24 países já enviaram mais de 2.700 socorristas, 521 toneladas de suprimentos e 86 equipes especializadas com cães treinados para localizar sobreviventes.
BRASIL AMPLIA APOIO ÀS OPERAÇÕES
O governo brasileiro confirmou neste domingo o envio de um quarto voo com ajuda humanitária à Venezuela.
A aeronave partirá da Base Aérea de Guarulhos levando 35 bombeiros militares dos estados de São Paulo e Minas Gerais, que reforçarão as equipes já mobilizadas em La Guaira.
OUTROS TRÊS VOOS FORAM ENVIADOS DESDE SEXTA-FEIRA
Em nota, o Palácio do Planalto informou que o Brasil permanece à disposição das autoridades venezuelanas e dos organismos internacionais para ampliar o apoio humanitário conforme novas necessidades forem identificadas.
A tragédia ocorre em um momento em que a Venezuela ainda enfrenta uma profunda crise econômica, com hospitais fragilizados, serviços públicos comprometidos e milhões de cidadãos que deixaram o país nos últimos anos.
"Está tudo muito caótico. Faz muito calor e há uma desorganização total. Esperamos que ainda existam pessoas para serem encontradas", afirmou o bombeiro australiano Craig Demeillon, voluntário que viajou de Miami para integrar as operações de busca.
