CRÔNICA DE CARNAVAL
No sábado de Carnaval, Belém parecia respirar mais forte. As ruas cheias, o som escapando das caixas de som, gente dançando sem muito ensaio, vendedores equilibrando isopor e esperança. Era aquele caos organizado que só a festa popular consegue produzir, quando a cidade deixa de ser apenas concreto e trânsito e vira encontro. Ali, no meio do empurra empurra, dava para ver que o Carnaval não é só música e fantasia. É gente ocupando o espaço que também é seu.
Do outro lado da ponte, Ananindeua atravessava os mesmos dias como se fosse um feriado qualquer. Nenhum palco, nenhum bloco, nenhuma programação oficial que chamasse o povo para fora de casa. A cidade seguia em silêncio, como se o calendário tivesse pulado uma página. Não havia multidão, nem ambulante disputando esquina, nem criança encantada com confete no cabelo. Havia apenas o costumeiro ir e vir, sem festa, sem convite, sem cor.
É curioso como duas cidades tão próximas podem viver tempos tão diferentes. Em Belém, o Carnaval vira desculpa para existir em conjunto, para lembrar que a rua é lugar de convivência e não só de passagem. Em Ananindeua, o vazio da programação oficial parece dizer que o encontro pode esperar, que a cultura não é urgente, que a alegria é opcional. E a cidade, quando não é chamada a se encontrar, aprende a ficar recolhida.
No fim das contas, o Carnaval passa. A música acaba, a serpentina some da calçada, a rotina volta a ocupar os espaços. Mas fica a sensação de que, onde houve festa, houve também memória. Onde não houve nada, ficou só o silêncio dos dias comuns. E talvez seja isso que mais pese. Não a ausência de um evento, mas a ausência de um gesto que diga para a população: a cidade também é lugar de celebração, de pertencimento e de vida compartilhada.
