Um processo judicial de 1900 preservado no Centro de Memória da Amazônia revela um crime brutal contra uma mulher em Belém. O caso de Severa Romana expõe práticas de violência que, infelizmente, ainda se repetem no Brasil de 2026.
Flores coloridas decoram uma sepultura branca no Cemitério de Santa Izabel, em Belém, da lavadeira assassinada há 121 anos. No centro do crucifixo, uma imagem desgastada pelo tempo mostra o rosto da vítima Severa Romana.
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Severa Romana trabalhava como lavadeira e morava na rua João Balbi, no Umarizal. Na época, essa região era considerada isolada do centro de Belém. Ela era casada com Pedro Cavalcante de Oliveira e, além de lavar roupas, preparava refeições para os moradores da casa onde vivia.
Crime aconteceu durante tentativa de abuso
O casal dividia a residência com outras pessoas por questões financeiras, prática comum no início do século XX. Entre os moradores estava o cabo Antônio Ferreira dos Santos, que viria a cometer o assassinato.
Segundo o processo, ainda preservado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), o militar tentou abusar sexualmente de Severa durante o almoço. Diante da resistência da mulher, que estava nos últimos meses de gestação, ele a matou com golpes de navalha.
A parteira Joanna Maria Gadelha, dona da casa, estava no quintal quando ouviu os gritos. Porém, ao chegar na sala, encontrou Severa já caída no chão.
Outro morador, José do Patrocinio da Costa Santos, viu o cabo fugir em direção à travessa 14 de Março. Diversas pessoas perseguiram o assassino pelas ruas do bairro.
População demonstrou indignação no dia do julgamento
A revolta popular ficou registrada nos documentos judiciais. No dia do julgamento, um grupo grande de pessoas se reuniu em frente ao prédio do tribunal.
Quando a polícia trouxe o cabo Antônio Ferreira dos Santos, a multidão gritou "fora a fera fardada". Esse episódio mostra a comoção que o crime gerou na sociedade belenense já à época.
A defesa do militar tentou usar uma estratégia ainda vista em 2026: culpar a vítima. Os advogados tentaram manchar a reputação de Severa para inocentar o assassino.
Felizmente, essa tática não funcionou. Em outubro de 1902, o júri condenou Antônio Ferreira dos Santos a 30 anos de prisão.
Comunidade organizou coleta para construir sepultura
Os jornais da época registraram a mobilização popular após o crime. O jornal O Pará publicou em 11 de agosto de 1900 uma notícia sobre uma arrecadação de fundos.
A Sociedade Beneficente Santa Rita dos Impossíveis organizou a coleta e enviou um ofício à Intendência Municipal. O dinheiro arrecadado serviu para construir o túmulo que existe até hoje no Cemitério de Santa Izabel, em Belém.
Caso histórico ajuda a debater violência atual
O Brasil tipificou o feminicídio como crime apenas em 2015, há 11 anos. Por isso, documentos como o processo de Severa Romana têm valor especial.
Eles mostram que a violência contra mulheres existe há séculos, mas também revelam que a sociedade sempre reagiu a esses crimes. A publicação desses registros históricos fomenta debates importantes em 2026.
Além disso, são documentos que ajudam a sociedade a entender a urgência de combater a violência de gênero. E mais, eles permitem que as pessoas conheçam as ferramentas legais disponíveis atualmente, como a Lei Maria da Penha.
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A história de Severa Romana, portanto, conecta o passado ao presente e reforça a necessidade de proteger as mulheres brasileiras não apenas neste mês de março, conhecido pela visibilidade do Dia Da Mulher.
