A sucessão de denúncias, paralisações e interrupções de serviços públicos revela um cenário de instabilidade que atravessa diferentes áreas da administração municipal de Ananindeua.
Um caso envolvendo o funcionamento de um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, chama atenção. O dono do prédio onde funciona a unidade afirma estar há quase um ano sem receber os pagamentos de aluguel por parte da prefeitura e denuncia abandono da estrutura.
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Segundo o proprietário, o contrato já não está mais vigente, e o imóvel foi formalmente solicitado de volta, mas a administração municipal ainda não regularizou a situação nem quitou os valores em aberto. Ele relata que a dívida acumulada se aproxima de R$ 50 mil.
De acordo com o denunciante, identificado no vídeo apenas como Chaves, ele também chegou a fazer uma tentativa de venda do imóvel, cujo valor inicial pedido era de R$ 2 milhões e depois reduzida a proposta para R$ 1,5 milhão, mas acabou não tendo retorno da prefeitura de Ananindeua. “Eu já fiz proposta, até reduzi o valor. Era R$ 2 milhões, cheguei a baixar para 1 milhão e meio”, declarou ele, reafirmando sua tentativa de manter o diálogo e viabilizar a continuidade do atendimento no local.
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O proprietário também aponta que o prédio estaria deteriorado. Ele afirma que parte da estrutura foi danificada durante o período de uso, citando destruição de áreas como a maloca próxima à piscina, corte de árvores sem autorização e abandono de espaços internos, incluindo cozinha e área de lazer. Segundo ele, a piscina está sem manutenção adequada, o que pode representar risco sanitário.
Além do prejuízo financeiro, o dono do imóvel relata enfrentar dificuldades pessoais em razão da inadimplência. Conforme afirmou, o não pagamento do aluguel por parte da prefeitura de Ananindeua tem impactado diretamente suas obrigações, inclusive com ameaça de despejo no local onde reside atualmente.
“Estamos quase um ano sem pagamento. O ano já virou, estamos indo para março e nenhum pagamento aconteceu”, afirma ela, acrescentando que "não pretende prejudicar o atendimento social realizado no local, mas cobra uma solução por parte das autoridades".
O caso envolve o funcionamento de um CRAS, equipamento público responsável por ofertar serviços de assistência social à população em situação de vulnerabilidade. Até o momento, segundo o proprietário, não houve posicionamento definitivo da gestão municipal sobre a quitação dos débitos ou desocupação formal do imóvel.
O DOL entrou em contato com a Prefeitura de Ananindeua para esclarecimentos sobre o caso e, aguarda um posicionamento.
CAOS ADMINISTRATIVO
Da saúde à educação, passando pela iluminação pública e pela assistência social, moradores relatam impactos diretos no dia a dia, enquanto a dívida consolidada do município ultrapassa R$ 641 milhões, segundo dados oficiais.
Nos últimos meses, professores anunciaram paralisação organizada pelo SINTEPP-PA, cobrando valorização salarial e contestando o reajuste de 6% anunciado pelo prefeito Daniel Santos. A categoria estima adesão de cerca de 80% dos profissionais da rede municipal, o que ameaça o calendário letivo e amplia a tensão no setor educacional.
Na área da saúde, os problemas também se acumulam. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro do Aurá foi alvo de denúncias de falta de médicos e medicamentos, com relatos de pacientes que deixaram o local sem atendimento. Já o Hospital Anita Gerosa, que suspendeu serviços após crise financeira, acabou sendo desapropriado pelo Governo do Estado. O governador Helder Barbalho anunciou que a unidade dará lugar a um hospital estadual materno-infantil após a instituição acumular dívidas, inclusive com a prefeitura de Ananindeua.
A iluminação pública também entrou na lista de serviços sob risco. A empresa responsável pela manutenção teria acionado a Justiça cobrando dívida superior a R$ 5,5 milhões. Há registros de ruas com lâmpadas apagadas e moradores relatam aumento da sensação de insegurança em bairros periféricos.
O pano de fundo de todas essas situações é o crescimento acelerado da dívida pública municipal. De acordo com relatórios fiscais e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a Dívida Pública Consolidada, que era de pouco mais de R$ 53 milhões em 2020, deve ultrapassar R$ 641 milhões em 2025, com projeção ainda maior para 2026.
Com serviços essenciais pressionados, fornecedores recorrendo à Justiça e categorias profissionais mobilizadas, Ananindeua enfrenta um cenário de instabilidade administrativa que coloca em xeque a sustentabilidade fiscal do município e amplia o debate sobre a condução das finanças públicas. A continuidade desse quadro pode impor restrições ainda mais severas ao orçamento e afetar diretamente a qualidade de vida dos mais de meio milhão de habitantes da cidade.
