Os corredores estreitos e ventilados dos velhos sanatórios não apenas rangeram nossas memórias, as trituram. As histórias das tuberculoses (TB) de cá e de outros mundos não só ecoam pela literatura, cemitérios, ou mesmo pela ciência; ela insiste em perambular pela vizinhança e calçadas de nossa cidade, por tribos indígenas da Amazônia e africanas, pela Europa e toda América. São cerca de 1,3 milhões/ano de mortes no mundo - equivale a uma Belém/ano. São seis mil mortes/ano no Brasil... E se for para continuar a relatar números, este espaço não será suficiente para outras mensagens e reflexões sobre a data.

A tuberculose tem íntima relação com as mazelas sociais. É um dos frágeis pilares da saúde pública brasileira. Em recente discussão clínica no Hospital Barros Barreto–UFPA, cognominada BAAR Café, ficamos pasmos que a COVID-19 teve tanta merecida atenção, mas não se consegue o mesmo com a TB. É doença que também nos enclausura por ser endêmica, ou seja, está nos shoppings, nos estádios de futebol, nas reuniões familiares. Isso basta-nos para que se eleja um dia para a mais profunda reflexão sobre o tema; um dia para ficarmos de joelhos flexionados em oração.

E temos algo a comemorar? Pouco: o tratamento clássico já tem mais de 50 anos. Além de parcas novidades, a taxa de abandono é alta, por conta dos efeitos colaterais do longo tratamento. Com o abandono surge resistência a antibióticos, que definha qualquer programa, ou seja, mais disseminação do bacilo, mais mortes, mais disseminação, mortes... É quando o cerco se fecha e dentro do cercado ficamos apenas fazendo estatística: contando abandonos de tratamento e mortos.

Dói escrever sobre isso; a dor só não é maior por conta dos inquietos; os que se envolvem com a causa e ficam regurgitando ideias. Vejam o que a pneumologista Márcia Vasconcelos, do centro de referência em Tuberculose do Barros Barreto fez: “Caderno com orientações para o manejo da tuberculose pulmonar e laríngea em adultos” - guia para medicina de família e comunidade. É como se ela quisesse reescrever o be-a-bá da tuberculose que ronda pelas esquinas; é parte de seu doutoramento pela UEPA. Escreveu uma cartilha de fácil entendimento, destinada aos tísicos e médicos nos centros de saúde, onde está o primeiro atendimento. Não faltaram aplausos nas redes sociais dos pneumologistas.

Outro extremo que dispomos para a cura da tuberculose é o tratamento cirúrgico de outrora - dos tempos de Manuel Bandeira, Noel Rosa e do Papa Francisco. Algo que oscila entre as mutilações torácicas pela ressecção de várias costelas (toracoplastia) à necessidade de retirada de um dos pulmões. Está indicado para casos extremos. É a última esperança para os resistentes a remédios.

Outra novidade é a nova droga para os casos de multirresistência, conhecida como Bedaquilina, em associação com outras. Além de mais eficiente, reduz os dois anos de tratamento para seis meses. Os resultados são estimulantes. Carlos Albério, professor da UFPA, é um dos detentores do conhecimento acerca do tema. Ele relata cura de 77% (publicação em curso), tendo em vista que antes era 40%. É um alento, mas ainda falta.

Por fim, a reflexão. Ainda falta chão, mas nem por isso abandona-se a rota. Cuidar do tuberculoso é mais que fazer diagnóstico clínico, reconhecer bacilos ao microscópio, interpretar radiografias ou tomar comprimidos. É também olhar para o ser humano por trás da doença, compreender seus contextos, suas vulnerabilidades, sem esquecer a rede de cuidado que o sustenta desde a primeira tosse, quando se apresentou na Unidade de Saúde daquele bairro esquecido. Foi lá que a pesquisadora calçou a sandália para reescrever seu caderno, exatamente onde o redemoinho acontece, mas também é na porta da cirurgia, no ponto mais alto da cidade, que ela olha para suas cercanias.

*Roger Normando - professor de Cirurgia Torácica da UFPA e cirurgião voluntário do Centro de Referência Terciária em Tuberculose – SESPA-HUJBB-UFPA.

MAIS ACESSADAS