Quando um grupo de alunos saiu da sala de aula para observar aves que pousavam nos muros, fios e árvores da escola, a reação de quem via aquele movimento foi de estranheza e curiosidade. O que significava o vaivém silencioso de estudantes munidos de tabelas, lápis, binóculos, câmeras, e olhos no céu?

Guiados pelo professor Humberto Pereira, os 33 alunos e alunas de ensino fundamental da Escola Municipal Rotary, no bairro Condor, em Belém, procuravam qualquer sinal de “desconhecidos próximos”, como chamavam as aves, inicialmente.

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Só naquela manhã, passaram a conhecer 19 espécies! Mais do que isso: desvendaram um mundo fascinante de conhecimento; aprenderam o papel fundamental das aves no equilíbrio da natureza; compreenderam que elas espalham sementes e plantam árvores, polinizam flores e comem insetos – muitos, nocivos à saúde das pessoas. Passaram a reconhecer espécies pelo nome e pelo canto, e se tornaram propagadores dos benefícios que os pássaros em vida livre proporcionam à humanidade.

📷 Observação de pássaros: educação e contato com a natureza |João Vital/Divulgação

Alunos que, antes da aula, só conseguiam identificar, pelo nome, no máximo cinco aves, agora precisam tomar fôlego para disparar, de memória, a lista de espécies aprendidas: “urubu-de-cabeça vermelha, urubu-de-cabeça amarela, urubu-rei, periquito-rei, periquito da campina, sabiá-barranco, sabiá-laranjeira, garça-branca-grande, garça-branca-pequena, socó-boi, socozinho, cauré, tucano-de-papo branco, sanhaço do coqueiro, sanhaço da Amazônia, suiriri cavaleiro, bem-te-vi, bentevizinho de asa ferrugínea”, enumera Arthur, 10 anos, aluno da 4ª série.

Para Lariane, 10 anos, foi importante conhecer a função dos pássaros na natureza. “Eles plantam sementes. As árvores crescem e dão oxigênio pra gente respirar”, explica, animada com as curiosidades que aprendeu sobre cores, hábitos e habitat desses animais. “A cor do Sanhaço-da-Amazônia é azul-celeste. Ele gosta de comer frutas doces e só existe na Amazônia. Não foi detectado em nenhum outro lugar”, ensina.

A primeira experiência, nos pátios da Escola Municipal Rotary, em 2022, animou o professor Humberto Pereira - pedagogo, mestre em Currículo e Gestão de Escola e vice-presidente do Clube de Observação de Aves do Pará (COAPA) - a ampliar o projeto, que ganhou o nome de "Observação de aves em vida livre como instrumento de Educação Transdisciplinar", iniciado 2024. Em parceria com a professora Elisângela Pereira, pedagoga e especialista em Educação Especial, o projeto mostrou como a observação de aves, de forma lúdica, pode ajudar no aprendizado de diferentes disciplinas do ensino fundamental.

Ao conhecer a distribuição de espécies de aves pelas regiões do Brasil, os alunos tomam lições de Geografia. Aprendem Matemática quando dividem ou multiplicam o número de aves observadas. Por meio das espécies introduzidas no país, na época da invasão portuguesa, aprofundam conhecimentos em História e Ciências, e assim por diante. Encantadoras, as aves, por si só, despertaram grande interesse nos estudantes.

📷 |Gustavo Melo/Divulgação

Das oito turmas de 4º e 5º anos em que o projeto foi aplicado, cerca de 95% dos alunos criaram vínculos com a observação de aves. “Imaginávamos que, por estarem no ambiente urbano, as aves seriam pouco atraentes devido aos muitos jogos virtuais que as crianças acessam, mas o desconhecido (no caso, as aves) é sempre desafiador”, constata Humberto.

Pouso em Curuçá

O projeto de Humberto e Elisângela criou asas e pousou em Curuçá, no nordeste do Pará. A versão rural da experiência envolveu alunos e alunas da Escola Municipal de Ensino Fundamental Joana dos Santos Gomes, na comunidade Piquiateua, e teve como parceiros o presidente do Clube de Observação de Aves do Pará (COAPA), Gustavo Vieira de Melo, físico e professor da UFPA; do instrutor de Yoga, Brayan Cardoso, com formação em Direito, mas dedicado a práticas espirituais; e do sítio Pássaro Ímpar, numa Área de Proteção Ambiental (APA) do município.

📷 Encantamento diante da vida livre guia meninos e meninos na aprendizagem sobre as aves |João Vital/Divulgação

No frescor de uma manhã de domingo, às 6h30 - quando as aves aproveitam o silêncio para cantar com mais vigor, marcar território ou atrair parceiros -, os pequenos alunos, entre 8 e 10 anos, começaram a chegar ao sítio. Crianças que sempre viveram rodeados de passarinhos e outros bichos, paravam para observar, pela primeira vez, o papel desses seres no equilíbrio da natureza.

Para ver e ouvir os pássaros, orienta Humberto, é preciso fazer silêncio, ter paciência, concentração e respiração pausada, recomendações que fazem conexão perfeita com a Yoga.

“É uma ferramenta de preparação e alinhamento interior antes das atividades de campo”, explica o ioguine Brayan Cardoso. “Práticas de respiração, concentração e presença auxiliam na percepção sensível do ambiente, trazem o silêncio necessário para a observação e fortalecem o vínculo entre corpo, mente e natureza”.

Para as crianças, a Yoga foi apresentada por meio de brincadeiras e posturas inspiradas em árvores e animais – pássaros, especialmente. E foi assim, mais conscientes do momento presente e harmonizadas com o ambiente, que elas deixaram as esteiras e seguiram o professor em busca das espécies que cantavam e revoavam no sítio.

📷 |Gustavo Melo/Divulgação

A vocalização das aves é captada por um aplicativo muito usados pelos observadores, o Merlin Bird ID, capaz de identificar milhares de cantos e chamados, e detalhar informações sobre hábitos e regiões de ocorrência de cada espécie. Humberto é, a bem dizer, uma versão humana desse aplicativo. Conhece muito sobre a avifauna na Amazônia e tem intimidade com os passarinhos desde criança. Nasceu e viveu na comunidade ribeirinha Ajarapanema, em Cametá (PA), até os 22 anos. Seus pais o levavam para a roça de mandioca e o deixavam por perto, dentro de um paneiro, na floresta. “Dali eu via e ouvia as primeiras aves”, contou o professor às crianças de Curuçá.

📷 Estudantes observam e anotam sobre os animais avistados. |João Vital/Divulgação

Humberto aliou o conhecimento prático aos estudos e agora compartilha o que aprendeu com os estudantes. “Sem as aves, muitos ecossistemas perderiam as conexões vitais que mantêm a vida em equilíbrio”, diz o professor, e explica isso às crianças em linguagem simples e com auxílio de desenhos, pinturas e jogos educativos.

120 espécies observadas em dois dias

Antes do encontro com os estudantes curuçaenses, Humberto, Gustavo e Elisângela, membros do COAPA, já haviam esquadrinhado os céus e árvores do sítio Pássaro Ímpar e arredores. Em apenas dois dias, viram, ouviram e registraram 120 espécies. Todas foram imediatamente adicionadas ao WikiAves (wikiaves.com.br), maior enciclopédia de aves do Brasil, onde Curuçá figurava, até então, com apenas seis espécies registradas. Os números da avifauna no município tendem a aumentar consideravelmente, segundo o COAPA, porque o levantamento inicial ocorreu apenas em uma pequena parte da APA.

📷 |Gustavo Melo/Divulgação

Foi nesse espaço cercado de verde e frequentado por bem-te-vis, sanhaços, beija-flores, periquitos-da-campina, papagaios, sabiás, pica-paus, tangarás e muitos outros que as crianças passaram a manhã aprendendo com as aves. Olhar pelas lentes de binóculos e ver fotos de passarinhos captadas com zoom aproximaram ainda mais os pequenos observadores do universo das aves. Os desenhos e pinturas de pássaros ensinaram as diferenças entre espécies e os jogos educativos tornaram mais familiares os nomes de cada uma. Aprenderam, principalmente, que aves em vida livre valem muito mais do que passarinhos engaiolados.

Depois da aula no sítio, voltaram para casa com a curiosidade aguçada, olhando para o alto com outros olhos. Joany Mariah, de 8 anos, por exemplo, coloca o celular com o aplicativo Merlin Bird na cestinha da bicicleta e pedala até um lago próximo a sua casa, gravando todos os cantos que ouve no caminho. Na volta, mostra aos pais as espécies que registrou: maçarico-grande-da-perna-amarela, bico-chato-amarelo, balança-rabo-de-máscara, sabiá-barranco, neinei, curica... A pequena observadora também gosta de fazer as pessoas entenderem a valiosa função das aves no reflorestamento do planeta: “Os pássaros comem as frutas e quando fazem cocô a semente cai e plantam uma nova árvore”.

O despertar das crianças para o mundo dos pássaros é a prova de que a semente plantada pelo COAPA em Curuçá já começou a germinar.

Um clube com olhos bem abertos

O Clube de Observação de Aves do Pará (COAPA) saiu do ninho não faz muito tempo. Foi criado, no dia 16 de junho de 2024, depois de um curso promovido pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IdeflorBio), no Parque do Utinga. O observador e profissional da área do turismo Fred Crema, trazido pelo instituto, ampliou a visão dos observadores de Belém. Ele apresentou a atividade em bases técnica, econômica e principalmente prática, conta o presidente do clube, Gustavo Vieira de Melo.

📷 |Humberto Pereira/Divulgação

Uma das ações do COAPA foi promover passarinhadas e fortalecer o projeto Vem Passarinhar, do IdeflorBio, no Parque do Utinga, agregando um número cada vez maior de “coapeiros”, como chamam os associados do clube. Hoje, são 222 membros, com perfil movimentado no Instagram e grupo no Whatsapp, repleto de fotos e informações sobre o mundo da avifauna.

A atividade de observar aves em Belém é mais antiga do que o Clube. Mas foi a partir do COAPA que o Pará se tornou o segundo Estado do Brasil com maior número de espécies registradas: 973, depois do Amazonas, com 1.027 espécies, segundo o WikiAves.

Físico e doutor em Vibrações e Acústica, Gustavo Melo, o Guga, agregou o conhecimento científico à atividade de observador. Isso tornou sua audição mais eficientes do que a visão para encontrar pássaros na floresta. E quando os encontra, usa sua lente teleobjetiva para produzir imagens surpreendentes.

A seguir, trechos da conversa com Gustavo sobre temas relacionados à observação de aves em vida livre no Pará.

Municípios que observam aves, além da capital

- Provavelmente há mais municípios se organizando do que temos conhecimento, mas vemos movimentos fortes em Ananindeua, Benevides, Castanhal, Santa Bárbara do Pará, Cametá, Itaituba, Santarém, Curuçá, dentre muitos outros.

Contribuição do COAPA para o registro de espécies

- Com o surgimento do COAPA houve um crescimento vertiginoso do número de espécies registradas. Inicialmente, no Parque do Utinga, onde o Clube foi, digamos, forjado, adicionamos 150 espécies à lista já existente. Com a chegada de novos membros de outras regiões do Estado, o número de espécies registradas segue crescendo, o que pode ser acompanhado através de instrumentos como os sites WikiAves, eBird, iNaturalist etc.

A observação de aves e ecoturismo

- A atividade de observação de aves é uma febre mundial devido aos benefícios que propicia, seja em caráter individual ou coletivo. E o Pará, com seu potencial de espécies, lugares e pessoas incríveis (sim, as aves ajudam a nos conectar com pessoas maravilhosas!) é um destino cada vez mais procurado por observadores do Brasil e do mundo. As pessoas buscam as espécies que ocorrem em nosso estado, principalmente através do Wiki Aves (brasileiros) e do eBird (estrangeiros), e se encantam com a diversidade de espécies. Mas também se encantam com a cultura paraense em suas diversas formas, e tudo isso é ótimo para a economia do estado. Em Santa Bárbara do Pará, está sediada a Pará Birding Tour que oferece uma experiência incrível que vai além da observação de aves. Temos muitas outras opções, como a Aves da Amazônia, com foco em Cametá, e guias em outras regiões, como Santarém ou Itaituba.

Benefícios às comunidades rurais

- Ao estabelecer parcerias com guias de observação, várias comunidades se beneficiam e promovem, juntos, uma experiência sustentável. O COAPA também vem promovendo projetos de educação ambiental focado em crianças. Não poucas vezes, o foco de vários destes seres humanos em formação é convertido do desejo de captura dos animais para o desejo de conhecimento, registro e compartilhamento desse tesouro com outras pessoas.

Observação de aves X engaiolamento

- A atividade dos gaioleiros, apesar de grande, está em declínio, com um movimento diametralmente oposto no que se refere aos observadores. Queira Deus que estejamos vendo as últimas gerações de gaioleiros, e que as novas gerações sejam alcançadas pelo crescimento coletivo de observadores. Temos motivos para nos encher de esperança, pois conheço diversas pessoas por todo o Brasil, ex-caçadores/gaioleiros, que se converteram em guias de observação da avifauna, ao passo que não conheço nenhum observador de aves que tenha percorrido o caminho inverso!

Passaredo em números

📷 |Gustavo Melo/Divulgação

No mundo, são mais de 11.100 espécies de aves reconhecidas e mais de 100 milhões de observadores (birdwatchers), gerando cerca de 90 bilhões de dólares por ano.

No Brasil, são mais de 1.900 espécies de aves registradas e mais de 200 espécies endêmicas, que só existem aqui. São 53 mil o número de observadores de aves no país.

No Pará, foram registradas 973 espécies

O Ministério do Turismo lançou, no final de 2025, um catálogo com 123 empreendimentos, em todas as regiões, relacionados ao aviturismo.

Fontes: WikiAves, BirdLife International, Ministério do Turismo

Veja mais fotos de pássaros em vida livre

Texto: João Vital. Cedido especialmente para o DOL.

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