Em meio à vastidão silenciosa do espaço, onde rochas milenares cruzam órbitas invisíveis e guardam pistas sobre a origem do sistema solar, uma pesquisadora paraense tem ajudado a escrever novas páginas da astronomia. Longe dos grandes telescópios e centros espaciais, é de frente para a tela de um computador que Márcia Kishi transforma curiosidade em descoberta, e faz do Pará um ponto ativo no mapa da ciência mundial.
Educadora e pesquisadora apaixonada desde a infância, Márcia se tornou um dos principais nomes da ciência cidadã no Brasil ao ultrapassar a marca de 500 detecções de asteroides por meio do International Astronomical Search Collaboration, iniciativa internacional em parceria com a NASA.
O desempenho, registrado entre 2023 e 2026, rendeu reconhecimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com a concessão de medalhas de mérito.
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O interesse pelo universo começou ainda na infância, impulsionado por experiências simples, mas marcantes, como visitas escolares ao planetário. A partir dali, o fascínio pelo céu se transformou em propósito.
“Eu sempre amei astronomia desde criança. Amava saber sobre os planetas, constelações, sol, asteroides. Quando eu era criança, o meu sonho era ganhar um telescópio. Eu amava ir aos passeios da escola no Planetário do Pará, era incrível! Desde então, a minha curiosidade só aumentou. Quando cresci, meu interesse por tecnologia e astronomia foi crescendo ainda mais. Participei de alguns cursos livres na área e depois passei a atuar de forma prática, analisando imagens de telescópios.”
Esse caminho a levou a integrar o programa Caça Asteroides MCTI, uma rede coordenada por instituições como o Observatório Nacional, que conecta pesquisadores e voluntários no monitoramento de objetos espaciais.
Como funciona a “caça” aos asteroides
O trabalho de Márcia exige rigor técnico e atenção minuciosa. Utilizando imagens captadas pelos telescópios Pan-STARRS, no Havaí, ela analisa sequências fotográficas em busca de pontos em movimento — sinais de possíveis asteroides.
“Participo do projeto Internacional Search Collaboration- IASC que tem parceria com a NASA. No Brasil, o projeto é coordenado pra Profª. Ma. Silvana Copceski e funciona da seguinte forma: existe um observatório localizado no Havaí que fornece as imagens. Analisamos essas imagens do Pan-STARRS pelo computador; cada equipe recebe um conjunto de imagens e as examina em um software chamado Astrometrica. Nas imagens, precisamos detectar um objeto que se movimenta em 3 ou 4 ‘pulos’. Caso ele apresente as características de asteroide, reportamos a detecção e, depois de um tempo, é divulgada uma lista que é estudada para obter mais informações sobre o asteroide.”
Após a identificação, os dados são enviados ao Minor Planet Center, responsável pela validação internacional. O processo pode levar à designação provisória, numeração e até nomeação oficial do objeto, um dos momentos mais aguardados por quem atua na área.
Descobertas que cruzam o sistema solar
Entre as mais de 500 detecções, Márcia identificou asteroides de diferentes classes orbitais, o que demonstra a amplitude e relevância do seu trabalho. Entre eles estão objetos do Cinturão Principal, localizado entre Marte e Júpiter, além de categorias mais específicas e complexas.
Entre os destaques estão:
- Mars-crossers, que cruzam a órbita de Marte;
- Hildas, que mantêm ressonância orbital com Júpiter;
- Jupiter Trojans, que compartilham a órbita do gigante gasoso;
- Hungaria, grupo com órbitas internas e características próprias;
- Amor, conhecidos como NEOs (objetos próximos à Terra).
Esses últimos, inclusive, estão entre os mais monitorados pela comunidade científica por seu potencial de aproximação com o planeta.
Até o momento, dezenas das descobertas de Márcia já receberam designações provisórias, e uma foi oficialmente numerada — etapa que abre caminho para a nomeação futura. E ela já tem planos para isso.
“Após um período, se o asteroide for confirmado, ele passa por algumas etapas até o crédito final: identificação do objeto, designação provisória, numeração e nomeação. Caso seja numerado e creditado, a pessoa descobridora pode nomear o asteroide. Penso em, futuramente, homenagear algumas pessoas do Norte, professores e pesquisadores.”
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Desafios e representatividade
Apesar das conquistas, a trajetória também foi marcada por desafios — muitos deles relacionados a preconceitos e desvalorização.
“Meu maior desafio foi lidar com comentários de que isso era perda de tempo ou de que, por eu ser mulher, deveria fazer outra coisa, mas a ciência deve ser para todos.”
Ainda assim, ela seguiu firme e hoje se orgulha de representar o Pará em eventos nacionais, muitas vezes como única participante do estado.
“Fico muito feliz por poder representar o Pará e contribuir com a ciência. O estado possui diversos talentos que muitos desconhecem, e me sinto honrada em ser paraense e representar em grandes eventos, um lugar que tanto amo. No ano passado e em 2024, eu era a única pessoa representando o Pará na cerimônia em Brasília.”
Ciência para todos
Mais do que descobrir asteroides, Márcia tem como missão ampliar o acesso ao conhecimento. À frente do clube STEAM Atena, ela oferece ensino gratuito para crianças de diversas regiões do país, unindo ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática.
“Eu penso em levar a astronomia para mais pessoas. Tenho um clube STEAM Atena (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics), no qual ensino, de forma gratuita, crianças de diversos lugares no Brasil. Meu objetivo é popularizar a ciência e levar conhecimento a diferentes públicos. Gostaria muito de ter recursos para democratizar a educação. Atualmente, faço tudo sozinha e sem apoio financeiro, mas espero que, futuramente, contar com parceiros, pois a educação e o acesso ao conhecimento devem ser para todos.”
Com uma formação acadêmica ampla, que inclui áreas como informática, filosofia, pedagogia e tecnologia, além de diversas especializações, ela une ciência e educação como pilares de transformação social.
Um futuro com mais estrelas e mais mulheres
Ao olhar para o futuro, Márcia não pensa apenas em novas descobertas, mas em mudanças estruturais na sociedade. Seu desejo é que mais meninas e mulheres ocupem espaços na ciência e que histórias como a dela deixem de ser exceção.
“Meu sonho é que as próximas notícias sobre as mulheres sejam de conquistas e felicidade. Fico muito feliz com avanço e realização feminina. É essencial que, desde cedo, haja incentivos e projetos, pois acredito que muitas mulheres são capazes. Por um mundo com mais meninas e mulheres ocupando diversos cargos e espaços. Vocês são capazes, pois não há limites para os seus sonhos.”
Entre órbitas e algoritmos, Márcia Kishi segue provando que a ciência pode nascer em qualquer lugar, inclusive no Norte do Brasil, e alcançar dimensões tão vastas quanto o próprio universo.
