O estado do Pará registrou, entre 2019 e 2024, uma das reduções mais expressivas da violência letal do país. Os dados apresentados pelo Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que o estado consolidou uma trajetória consistente de queda nos homicídios, revertendo um cenário que, poucos anos antes, colocava o território paraense entre os mais críticos do Brasil em termos de letalidade violenta.
Entre 2019 e 2024, o Pará reduziu em 30,6% o número absoluto de homicídios e em 32,7% a taxa por 100 mil habitantes. Em termos práticos, isso significa que o estado saiu de 3.405 mortes violentas registradas em 2019 para 2.364 em 2024, uma redução superior a mil vítimas em apenas cinco anos. A taxa de homicídios caiu de 40,7 para 27,4 por 100 mil habitantes, desempenho que colocou o Pará acima da média nacional na redução proporcional da violência letal no período.
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Essa retração ganha dimensão ainda maior quando comparada ao auge da violência recente no estado. Em 2017, o Pará havia alcançado taxa de 55,6 homicídios por 100 mil habitantes, um dos piores patamares de sua série histórica. Em sete anos, o indicador foi praticamente reduzido à metade, consolidando uma mudança estatística relevante na curva da criminalidade letal.
Homicídios estimados
A metodologia do Atlas também leva em conta os chamados homicídios estimados, que incluem a reclassificação estatística de mortes violentas inicialmente registradas sem causa determinada. Mesmo sob esse critério ampliado, o cenário do Pará permanece positivo.
Entre 2019 e 2024, o estado registrou redução de 29,9% no número absoluto de homicídios estimados e queda de 32,0% na taxa. Já os chamados homicídios ocultos apresentaram retração de 11,5% no número e 13,3% na taxa, enquanto as mortes violentas por causa indeterminada recuaram 19,6%.
Os números reforçam que a queda observada não decorre apenas de mudanças metodológicas ou de subnotificação, mas reflete efetiva diminuição da violência letal.
Jovens e adolescentes
O recorte etário mostra que a retração da violência atingiu com força a juventude paraense, historicamente o grupo mais vulnerável à letalidade violenta.
Entre jovens de 15 a 29 anos, houve redução de 37,6% no número de homicídios e de 36,7% na taxa. Entre homens jovens, a queda foi de 37,5% no número absoluto e 34,4% na taxa.
O dado mais expressivo aparece entre adolescentes de 15 a 19 anos, faixa em que o Pará registrou redução de 55,6% no número de mortes e de 53,5% na taxa, um dos recuos mais significativos observados no período.
O desempenho supera a média nacional e sinaliza mudança importante na incidência da violência letal sobre a população jovem.
Violência contra mulheres
Os indicadores relacionados à violência letal contra mulheres também mostram melhora consistente. No período analisado, o Pará registrou redução de 26,7% no número absoluto de homicídios de mulheres e queda de 29,1% na taxa por 100 mil mulheres.
Entre mulheres negras, a redução foi de 27,9% no número de mortes e 28,3% na taxa. Entre mulheres não negras, os indicadores recuaram 14,3% no número absoluto e 20,0% na taxa.
Embora os dados revelem avanço, o Atlas aponta que a desigualdade racial segue influenciando a distribuição da violência letal feminina.
População negra e não negra
A retração da violência letal no Pará foi observada entre diferentes grupos raciais. Entre pessoas negras, houve redução de 30,1% no número absoluto de homicídios e queda de 31,8% na taxa registrada. Entre pessoas não negras, o recuo foi de 28,4% no número e 32,6% na taxa.
Os percentuais mostram que a redução ocorreu de maneira relativamente disseminada, embora o peso histórico da violência continue incidindo com maior intensidade sobre populações socialmente vulneráveis.
Povos indígenas
No recorte indígena, o Atlas apresenta cenário ambivalente. Os homicídios de indígenas no Pará caíram 28,6% no número absoluto e 54,3% na taxa, indicando forte retração da letalidade violenta.
Em contrapartida, os suicídios cresceram 100% em número absoluto, passando de um para dois registros, além de aumento de 28,6% na taxa.
Embora a base numérica seja pequena, a variação chama atenção para fragilidades sociais e psicológicas que afetam essas populações.
