Uma das fibras vegetais mais tradicionais da Amazônia está prestes a passar por um processo de modernização que pode mudar a realidade de centenas de famílias ribeirinhas no Pará. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), aprovou um investimento de R$ 25,7 milhões para estruturar a cadeia produtiva da malva, planta nativa da região utilizada na fabricação de têxteis, cordas, tapetes, estofamentos e sacarias agrícolas.

A iniciativa foi apresentada pela Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), empresa paraense que atua há mais de quatro décadas com fibras amazônicas. Do total de recursos, R$ 15,2 milhões serão aportados pela Finep por meio de subvenção econômica, modalidade em que o governo federal assume parte dos riscos da inovação para viabilizar projetos estratégicos.

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O objetivo é enfrentar um dos principais gargalos da cadeia produtiva: a baixa tecnificação das etapas de cultivo, colheita e beneficiamento da fibra.

"É uma cadeia produtiva que enfrenta vários desafios. Entre eles, o baixo índice de tecnificação desde o plantio até o beneficiamento das fibras", afirmou o superintendente da área de Cadeias Agroindustriais e Defesa da Finep, Rodrigo Secioso.

Produção artesanal e dificuldades históricas

Atualmente, a produção da malva ainda depende de técnicas essencialmente manuais. Cultivada em áreas de várzea, a planta é semeada quando os rios baixam e colhida no período das cheias.

Após o corte, os produtores agrupam os caules em feixes e os deixam submersos por cerca de dez dias para facilitar a retirada das fibras. Em seguida, o material é retirado da água e colocado para secar em varais artesanais.

Segundo a Finep, a falta de estrutura adequada para colheita, transporte, secagem, prensagem e armazenamento provoca perdas econômicas, reduz a qualidade da fibra e limita a capacidade de expansão da atividade.

Para mudar esse cenário, o projeto prevê pesquisas para aprimoramento das espécies cultivadas, desenvolvimento de novos maquinários para colheita e separação de sementes, além da implantação de sistemas digitais de gestão e rastreabilidade da produção.

Aumento da produtividade e agregação de valor

De acordo com a Finep, uma das principais metas é aumentar a produtividade e transformar a malva em uma matéria-prima mais valorizada no mercado nacional e internacional.

Em resposta ao DOL, a instituição destacou que a mecanização deverá acelerar etapas atualmente realizadas manualmente, reduzindo perdas e ampliando a eficiência da cadeia produtiva.

"O principal objetivo do projeto é reverter o atual baixo índice de tecnificação que existe desde o plantio até o beneficiamento da fibra", informou a Finep.

O órgão também avalia que a obtenção de uma fibra de melhor qualidade poderá abrir novos mercados para os produtores paraenses.

"Os testes em todas as fases da produção visam obter uma fibra mais nobre. Isso permitirá ir além dos usos tradicionais e produzir têxteis de maior valor agregado, aumentando o preço pago ao produtor", destacou a instituição.

Do interior do Pará para a moda internacional

A malva ganhou projeção internacional recentemente após a atriz brasileira Alice Carvalho utilizar, durante a cerimônia do Oscar, um vestido confeccionado com tecido produzido pela Companhia Têxtil de Castanhal a partir da combinação de juta e malva.

O episódio chamou a atenção para o potencial da fibra amazônica em segmentos mais sofisticados da indústria da moda.

Segundo a Finep, a estratégia agora é aproveitar essa visibilidade para consolidar a presença da malva em nichos de maior valor agregado.

"A Finep e a CTC pretendem usar essa visibilidade para consolidar a malva como um produto de moda de alto valor agregado no mercado internacional", informou o órgão.

Além da moda, a expectativa é ampliar o uso da fibra em têxteis diferenciados, voltados para mercados que valorizam produtos sustentáveis e rastreáveis.

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Benefícios para comunidades ribeirinhas

Um dos pontos centrais do projeto é garantir que os ganhos da inovação cheguem aos produtores responsáveis pela base da cadeia produtiva.

Para isso, estão previstos estudos para aprimoramento das práticas agrícolas, desenvolvimento de tecnologias adaptadas à realidade amazônica e a criação de negócios comunitários piloto.

Segundo a Finep, os investimentos foram estruturados para beneficiar diretamente as comunidades produtoras.

"O governo federal estrutura o projeto para que a inovação alcance a base da cadeia produtiva. Os principais desafios começam no cultivo e na extração, e não apenas na indústria", destacou a instituição.

A proposta também inclui a avaliação de mecanismos financeiros que facilitem o acesso ao crédito e ampliem a capacidade produtiva das famílias envolvidas.

Comunidades estratégicas no Pará

Embora o projeto ainda esteja em fase de formalização, a Finep informou que a Companhia Têxtil de Castanhal pretende fortalecer polos produtivos já existentes em regiões estratégicas do estado.

Entre eles estão os municípios de Óbidos e Alenquer, no oeste paraense, além da Ilha do Marajó e da região Bragantina.

A quantidade de comunidades beneficiadas e os critérios de seleção ainda serão definidos durante a execução da iniciativa.

Resultados esperados em até 5 anos

A Finep projeta que os primeiros resultados sejam observados ainda durante a implementação do projeto, especialmente com a instalação dos projetos-piloto e o desenvolvimento das novas tecnologias.

Entretanto, os impactos econômicos mais significativos devem aparecer no médio prazo.

"Os impactos mais relevantes no estado do Pará, como ganho de renda, expansão da produção e consolidação comercial, tendem a se tornar mais perceptíveis no médio prazo, entre três e cinco anos", informou o órgão.

A expectativa é que, ao final da iniciativa, estejam consolidados protocolos de produção, sistemas de rastreabilidade, mecanismos de gestão digital e modelos cooperativos capazes de serem replicados em outras regiões da Amazônia.

Modelo para outras cadeias da bioeconomia

A Finep acredita que o projeto poderá servir como referência para outras cadeias produtivas amazônicas.

"A ideia é que acertar a fórmula para a malva, que inclui assistência técnica, maquinário e organização comunitária, sirva de lição para outras cadeias de fibras vegetais ou produtos extrativistas da região", destacou a instituição.

Caso os resultados sejam positivos, a experiência poderá abrir caminho para novos investimentos federais em cadeias ligadas à bioeconomia, fortalecendo atividades sustentáveis e ampliando oportunidades para comunidades tradicionais da Amazônia.

A iniciativa busca demonstrar que ciência, tecnologia e desenvolvimento regional podem caminhar juntos, transformando uma atividade historicamente artesanal em uma cadeia produtiva mais moderna, competitiva e capaz de gerar renda para quem vive da floresta.

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