Dias de jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo costumam transformar ruas, escolas, empresas e residências em verdadeiros pontos de celebração. Fogos de artifício, buzinas, gritos de torcida e reuniões familiares fazem parte da tradição que mobiliza milhões de brasileiros. Para muitas famílias de crianças autistas e neurodivergentes, no entanto, esses momentos exigem planejamento e adaptações para garantir conforto, segurança e bem-estar.
A secretária da Primeira Infância de Belém, Flávia Marçal, que também é mãe atípica e ativista da causa, explica que a preparação para os dias de jogo deve começar pelo conhecimento das necessidades individuais de cada criança.
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Segundo ela, embora nem todas as pessoas autistas apresentem hipersensibilidade auditiva, muitas podem sentir desconforto diante do excesso de estímulos presentes durante as comemorações.
"A preparação começa pelo conhecimento do perfil sensorial da própria criança. O objetivo não é forçá-la a permanecer em um ambiente desconfortável, mas possibilitar que participe de forma segura, prazerosa e respeitosa às suas necessidades", afirma a secretária da Primeira Infância de Belém.
Entre as estratégias recomendadas estão a antecipação da programação, o uso de recursos visuais para explicar o que acontecerá durante o evento, a combinação de sinais para comunicar desconforto, além da utilização de abafadores de ruído ou fones de proteção auditiva.
Julgamentos ainda fazem parte da realidade
Apesar dos avanços na conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Flávia Marçal avalia que ainda existe falta de compreensão por parte da sociedade quando uma criança cobre os ouvidos, se afasta da comemoração ou demonstra desconforto em ambientes movimentados.
"Muitas pessoas interpretam essas reações como falta de educação, birra ou excesso de proteção dos pais, quando, na verdade, podem representar uma tentativa legítima de autorregulação diante de estímulos intensos", ressalta ela.
Flávia destaca que esse cenário afeta diretamente as famílias, especialmente as mães atípicas, que frequentemente enfrentam ansiedade e receio de críticas em espaços públicos. Em alguns casos, o medo do preconceito acaba levando ao isolamento social.
"Precisamos compreender que inclusão não significa exigir que a pessoa autista se adapte a qualquer ambiente, mas construir ambientes capazes de acolher diferentes formas de perceber e interagir com o mundo", acrescenta ela.
Participação respeitando os limites
Para que as crianças possam aproveitar os jogos de forma positiva, a secretária reforça a importância de respeitar os limites individuais e adaptar as celebrações às necessidades de cada uma.
Entre as recomendações estão permitir pausas em locais silenciosos, evitar cobranças para que a criança permaneça durante toda a partida e valorizar formas alternativas de participação, como vestir a camisa da Seleção, compartilhar um lanche temático ou acompanhar apenas alguns momentos do jogo.
"O mais importante é compreender que aproveitar uma celebração não precisa significar participar da mesma forma que todas as outras pessoas", destaca.
Como mãe atípica, Flávia também deixa uma mensagem de acolhimento para outras famílias. "Nossos filhos têm direito ao lazer, à convivência comunitária e ao pertencimento. Uma crise sensorial não representa fracasso na educação, nem incapacidade da família. Ela é uma resposta do organismo diante de um ambiente que, naquele momento, pode estar excessivamente estimulante", destaca.
Rotina e previsibilidade são fundamentais
A médica neuropsicopedagoga Nayara Goffi reforça que as mudanças típicas dos dias de jogos podem impactar significativamente crianças neurodivergentes, especialmente aquelas que dependem de rotinas estruturadas para se sentirem seguras.
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"Crianças atípicas têm necessidade de seguir um cronograma e podem apresentar sensibilidade a sons, texturas, cores e mudanças no ambiente. Qualquer alteração pode refletir diretamente em suas atitudes e estabilidade emocional", explica a neuropsicopedagoga.
Segundo a especialista, isso não significa que elas não possam participar das comemorações, mas que o contato com esses eventos deve ser adaptado da melhor maneira possível.
Nayara destaca que crianças neurodivergentes costumam apresentar respostas mais intensas aos estímulos devido às particularidades do processamento sensorial.
"Eles têm dificuldade em filtrar esses estímulos. A forma como processam sons, movimentações e outras informações do ambiente é mais intensa que o habitual", afirma.
Como evitar crises durante as comemorações
Para reduzir os riscos de sobrecarga sensorial, a médica recomenda preservar ao máximo a rotina da criança. "A forma mais fiel de evitar crises é mudar minimamente a rotina dessas crianças", orienta.
Ela explica que, em alguns casos, utilizar interesses específicos ou hiperfocos da criança pode ajudar no controle emocional durante períodos de maior movimentação. O uso de abafadores de som também aparece entre as estratégias mais eficazes.
Caso ocorram sinais de desconforto ou início de uma crise sensorial, Nayara destaca que a principal atitude da família deve ser manter a calma. "Criar um ambiente acolhedor e com menos estímulos possível pode auxiliar muito. A pressão no toque físico por parte de um familiar que seja uma referência para essa criança também ajuda na regulação emocional", explica.
Inclusão também faz parte da torcida
Para a médica neuropsicopedagoga, apesar dos desafios, é importante que crianças neurodivergentes tenham a oportunidade de participar das celebrações da Copa do Mundo.
"Afinal, essa é parte da cultura brasileira. O contato pode acontecer e existem formas de minimizar crises, como iniciar essa adaptação com antecedência, utilizar abafadores de som e manter a convivência com pessoas que já fazem parte da rotina da criança", afirma.
Ela ressalta, porém, que respeitar os limites individuais continua sendo a regra mais importante. "Todas as crianças têm direito à diversão, à educação e a um futuro cheio de oportunidades. Existem várias formas de ensinar, aprender e participar. O fundamental é reconhecer o que melhor se adapta à realidade de cada família", recomenda.
Enquanto o país se mobiliza para torcer pela Seleção Brasileira, especialistas reforçam que inclusão também significa compreender diferentes formas de vivenciar esses momentos. Com planejamento, acolhimento e respeito, as comemorações podem se transformar em experiências positivas para todas as crianças.
