A morte da professora, pesquisadora, atriz e ativista Zélia Amador de Deus, uma das principais referências da educação e da luta antirracista na Amazônia, provocou uma onda de merecidas homenagens ao legado deixado por ela no Pará. A educadora morreu na última terça-feira (08/09), em Belém, deixando uma trajetória marcada pela defesa da igualdade racial, da educação pública, da cultura e dos direitos da população negra.
O velório de Zélia Amador de Deus ocorre no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém. A cerimônia de despedida começou na noite de terça-feira, com a presença de familiares, amigos, estudantes, artistas, intelectuais, militantes do movimento negro e representantes de instituições que fizeram parte da trajetória da professora. O sepultamento está marcado para esta quarta-feira (09/09), às 17h, no Cemitério Recanto da Saudade, em Belém.
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UFPA DECRETA LUTO OFICIAL:
A despedida acontece em meio a manifestações de pesar de diferentes setores da sociedade paraense e de instituições acadêmicas e culturais. A Universidade Federal do Pará (UFPA), instituição à qual Zélia dedicou mais de cinco décadas de sua trajetória, decretou luto oficial de três dias. A universidade destacou a contribuição da professora para a formação de gerações, para a produção de conhecimento e para a construção de políticas de inclusão e igualdade racial.
Zélia foi professora da UFPA, ocupou a vice-reitoria entre 1993 e 1997 e recebeu o título de Professora Emérita. Sua atuação também esteve ligada à criação e ao fortalecimento de políticas de ações afirmativas na universidade.
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Em uma homenagem publicada após a morte, a UFPA relembrou um dos últimos momentos de Zélia na instituição: o plantio de um baobá no Campus Guamá, realizado em 18 de agosto. A árvore foi escolhida como símbolo de ancestralidade, resistência, memória e transmissão de saberes. Na ocasião, Zélia se emocionou e destacou o significado da homenagem.
O gesto ganhou um significado ainda mais forte após sua morte. Para a universidade, o baobá passa a representar também a permanência do legado deixado pela professora.
GOVERNO DO PARÁ DECRETA LUTO
O Governo do Pará também decretou luto oficial de três dias pela morte de Zélia. A medida reconhece a importância de sua atuação acadêmica, cultural e política, especialmente na luta contra o racismo e na defesa dos direitos da população negra.
Zélia foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização criada em 1980 e que se tornou uma das referências do movimento negro na Amazônia.
A trajetória da professora também esteve relacionada à defesa de políticas de ações afirmativas, dos direitos das comunidades quilombolas e da ampliação do acesso da população negra à educação.
ARTISTAS, INTELECTUAIS E POLÍTICOS PRESTAM HOMENAGENS:
A notícia da morte provocou manifestações de artistas, intelectuais, políticos, jornalistas e militantes. Entre as homenagens está a da educadora e ativista Anielle Franco, que destacou Zélia como uma mulher que transformou a educação, a cultura e a luta antirracista em instrumentos de transformação social.
A repercussão também alcançou instituições de ensino superior de outras regiões do Pará. A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) publicou nota de pesar e classificou Zélia como uma referência incontornável da educação, da cultura e da luta por direitos no estado. A universidade ressaltou ainda sua contribuição para a valorização da cultura afro-brasileira, o enfrentamento ao racismo e a defesa do acesso da população negra à educação.
O prefeito de Belém, Igor Normando, também manifestou pesar e prestou homenagem à professora.
UMA TRAJETÓRIA MARCADA PELA EDUCAÇÃO E PELA CULTURA:
A história de Zélia Amador de Deus atravessou diferentes campos. Professora, pesquisadora, escritora, atriz e diretora de teatro, ela construiu uma carreira acadêmica profundamente ligada à cultura e às discussões sobre raça, identidade e desigualdade.
Na UFPA, participou da criação de projetos e iniciativas culturais e acadêmicas, incluindo o Auto do Círio, manifestação que reúne arte, cultura popular e religiosidade pelas ruas de Belém durante o período do Círio de Nazaré.
Sua atuação no movimento negro também marcou a história recente do Pará. Ao lado de outros militantes, participou da fundação do Cedenpa e esteve envolvida em debates sobre ações afirmativas, direitos humanos e políticas de inclusão.
Em 2026, poucos meses antes de sua morte, Zélia recebeu a Medalha Josildeth Gomes Consorte de Contribuição à Antropologia Brasileira no Enfrentamento ao Racismo e Discriminações Correlatas, concedida pela Associação Brasileira de Antropologia.
O LEGADO PERMANECE
A despedida de Zélia acontece poucas semanas depois de uma das últimas homenagens que recebeu em vida. O baobá plantado no Campus Guamá permanecerá como uma espécie de marco físico de uma trajetória construída durante décadas.
A árvore ainda é pequena e precisará de tempo para crescer. Mas a simbologia da homenagem traduz justamente aquilo que instituições, amigos, alunos e companheiros de militância destacam após sua morte: Zélia deixou raízes profundas na universidade, na cultura paraense e na luta pela igualdade racial.
Serviço
- Velório: Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém.
- Sepultamento: quarta-feira (9), às 17h.
- Local: Cemitério Recanto da Saudade, em Belém.
