Ao longo de sua trajetória, Zélia também atuou no teatro como atriz e diretora, e transformou as questões que a atravessaram em pesquisa e produção de conhecimento.

Zélia Amador de Deus, professora, pesquisadora, atriz e ativista que dedicou a vida à luta antirracista na Amazônia, morreu na terça-feira (8) em Belém, aos 74 anos. Sua morte provocou uma onda de homenagens ao legado que ela construiu ao longo de décadas no Pará e em todo o Brasil.

A agência Carta Amazônia, fundada por jornalistas negros para defender a pauta afroamazônica, publicou uma carta em homenagem à educadora. No texto, a agência afirmou que sua própria existência só é possível porque Zélia abriu caminhos antes.

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No documento, a Carta Amazônia destacou ainda que, se hoje o professor Gilmar Pereira da Silva ocupa o cargo de primeiro reitor negro da UFPA, é porque Zélia construiu as pontes que tornaram esse avanço possível.

Nascida em território quilombola no arquipélago do Marajó, Zélia se formou em Letras e enfrentou a repressão da ditadura civil-militar.

Fundou o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Além disso, articulou ativamente a implantação do sistema de cotas para pessoas negras nas universidades brasileiras.

Na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde atuou como docente, militante e vice-reitora, ela deixou marcas profundas.

Em 1997, ocupou pro tempore a Reitoria, tornando-se a primeira mulher negra a exercer o cargo em uma universidade federal do país. Por isso, seu papel na construção das políticas de ações afirmativas da instituição foi determinante.

A UFPA adotou seu sistema de cotas em 2008, quatro anos antes da aprovação da Lei Federal nº 12.711/2012. Entre os resultados concretos dessa política, destaca-se a destinação de 50% das vagas para estudantes de escolas públicas.

Somente entre 2022 e 2024, 1,5 mil indígenas e quilombolas ingressaram na federal por processos seletivos especiais.

As contribuições de Zélia não se limitaram ao povo negro. Ela também dedicou esforços à ampliação do acesso ao ensino superior para outros grupos historicamente excluídos:

  • Povos indígenas;
  • Quilombolas;
  • Ribeirinhos;
  • Moradores de periferias.

Ao longo de sua trajetória, Zélia também atuou no teatro como atriz e diretora, e transformou as questões que a atravessaram em pesquisa e produção de conhecimento.

Assim, ela se consolidou como uma das maiores intelectuais negras do Brasil. Contudo, para além dos números e dos cargos, Zélia Amador de Deus representa, sobretudo, a prova de que a luta coletiva transforma estruturas.

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