João de Deus Lobato, colunista do DOL, aponta os impactos do carregamento de carros elétricos no Brasil de forma simultânea.

Imagine milhares de carros elétricos chegando em casa no início da noite e sendo ligados à tomada praticamente ao mesmo tempo. Agora imagine o contrário: em vez de apenas consumir energia, parte desses carros ajudando a abastecer casas, empresas e até o próprio sistema elétrico.

Parece futuro distante? Talvez não tanto.

Essa foi uma das mensagens da Power2Drive South America 2026, terceira feira da The smarter E que abordo nesta série. O carro elétrico está deixando de ser apenas assunto da indústria automobilística e começa a fazer parte do próprio sistema elétrico.

O movimento é rápido. De janeiro a julho, foram emplacados no Brasil mais de 270 mil veículos eletrificados. Essa categoria inclui também híbridos sem recarga externa, mas os modelos que precisam ser conectados à rede, os 100% elétricos e os híbridos plug-in, já representam parcela expressiva desse mercado.

Mas o desafio não é apenas colocar mais carros elétricos nas ruas. É descobrir como, onde e quando carregar todos eles.

Imagine um condomínio com 50 carros elétricos. Se todos carregarem simultaneamente na potência máxima, a instalação poderá enfrentar uma demanda para a qual não foi projetada. O smart charging, ou carregamento inteligente, permite controlar potências, distribuir a capacidade disponível entre os veículos e escolher os horários mais adequados.

A inovação, portanto, vai muito além da potência do carregador. Sistemas de gerenciamento, monitoramento e tecnologias destinadas a condomínios, frotas e grandes pontos de recarga mostram que o carregador começa a deixar de ser apenas uma tomada sofisticada para fazer parte de um sistema de gestão de energia. Integração à rede e novos modelos de negócio estão entre os temas centrais da Power2Drive.

Nos condomínios, a discussão também não pode se resumir à pergunta: “posso instalar uma tomada na minha vaga?”. Capacidade da instalação elétrica, proteções, gerenciamento das cargas, medição, possibilidade de expansão e segurança contra incêndio precisam fazer parte do projeto. A regulamentação da recarga em edifícios e novas soluções de segurança estiveram entre os temas apresentados na feira.

A integração pode avançar ainda mais. Condomínios, empresas, estacionamentos e frotas poderão combinar energia solar, baterias estacionárias e carregadores, utilizando sistemas inteligentes para decidir quando consumir, armazenar ou carregar os veículos.

E aí chegamos a uma das ideias mais surpreendentes: o V2G, Vehicle-to-Grid, ou veículo para a rede. Com a recarga bidirecional, o automóvel não apenas recebe eletricidade. Sua bateria poderá também devolver energia à instalação ou à rede quando necessário. O carro passa a ser uma bateria sobre rodas. A tecnologia foi justamente um dos caminhos discutidos na Power2Drive para a futura integração da eletromobilidade ao sistema elétrico.

Isso não significa que amanhã todos os automóveis estarão fornecendo energia à rede. O V2G ainda depende de veículos e carregadores compatíveis, comunicação, regulamentação e modelos econômicos capazes de remunerar essa flexibilidade. Mas a direção da tecnologia está ficando clara.

A pergunta deixa de ser apenas “onde vou carregar meu carro?”. Passa a ser: como milhares de baterias sobre rodas serão integradas com segurança e inteligência ao sistema elétrico?

Se a energia solar mudou a forma de produzir eletricidade e as baterias começam a mudar a forma de armazená-la, a eletromobilidade acrescenta uma nova dimensão a essa transformação. O desafio não será apenas colocar mais carros elétricos nas ruas. Será integrá-los com segurança e inteligência ao sistema elétrico.

João de Deus Lobato é engenheiro eletricista, ex-executivo da distribuidora do Pará, articulista semanal do Diário do Pará, do portal DOL e da Gazeta do Amapá, consultor em energia e apresentador do podcast ÉLivre com João Lobato.

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