Em um país onde estatísticas de violência contra a mulher insistem em deixar de ser apenas números para se transformar em histórias interrompidas, cada novo caso carrega não só a dor de uma perda, mas também o peso de uma estrutura social que ainda falha em proteger. Entre relações marcadas por afeto e rupturas que deságuam em tragédia, o feminicídio segue como uma ferida aberta na realidade brasileira.

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É nesse cenário que a dor da família de Maysa Caroline Leal de Souza, de 26 anos, ganha contornos ainda mais difíceis: após o choque diante da brutalidade do crime, parentes aguardam a liberação do corpo, que até o início da manhã desta sexta-feira (16) permanece no Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, para que possam realizar o velório e o sepultamento.

A jovem foi encontrada morta na última quinta-feira (16), em uma área de mata no bairro do Curuçambá, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém, após desaparecer no dia anterior. O caso é investigado como feminicídio.

BUSCAS RECONHECIMENTO E CENÁRIO DO CRIME

Equipes da Polícia Militar, da Polícia Civil do Pará e do Corpo de Bombeiros participaram das buscas. A localização ocorreu após a família receber uma ligação de uma mulher apontada como amiga da vítima, indicando o local onde o corpo estaria.

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A área conhecida como Campo do Formigão, de difícil acesso, foi isolada para o trabalho da Polícia Científica, responsável pelos levantamentos periciais iniciais.

ÚLTIMOS PASSOS E EMBOSCADA

Segundo familiares, Maysa saiu de casa após receber um convite de uma amiga, identificada como "Duda". Horas depois, sem conseguir contato, a família iniciou buscas. A mesma mulher teria, posteriormente, informado que a jovem havia sido morta e indicado o local exato - circunstância que levanta suspeitas sobre sua participação ou conhecimento prévio do crime.

PRISÃO DURANTE OPERAÇÃO "ESCUDO FEMININO"

O principal suspeito é o ex-companheiro da vítima, Davi Joaquim Barbosa dos Reis. Ele foi preso no município de Bragança durante a operação "Escudo Feminino", deflagrada pelas forças de segurança do estado, e transferido para Belém ainda na noite de quinta-feira.

Em nota, a Polícia Civil do Pará informou que "as circunstâncias do caso são apuradas pela Delegacia de Enfrentamento ao Feminicídio e Outras Mortes Violentas em Função de Gênero (Defem). Um suspeito foi detido no município de Bragança e será encaminhado para a realização dos procedimentos legais cabíveis".

VERSÕES CONTRADITÓRIAS DO PRINCIPAL SUSPEITO

Após a prisão, Davi apresentou versões divergentes aos investigadores, o que amplia as dúvidas sobre a dinâmica do crime. Em um primeiro momento, ele afirmou que tanto ele quanto Maísa seriam alvos de criminosos e atribuiu a uma mulher identificada como "Duda" a articulação da emboscada. Segundo seu relato: "A Duda chamou ela (Maísa). Disse 'bora bem aqui rapidinho'. E aí levaram ela pro mato. A Duda me convidou também, mas eu disse que não queria ir".

Ainda nessa versão, ele alegou ter entregue o celular da vítima: "Eu dei o celular na mão da Duda. A Duda entregou pro pessoal lá. O celular da minha ex-mulher. A Duda fez a casinha pra ela e também queria fazer pra mim. Era pra morrer eu e a minha ex-mulher. Se eu entrasse no carro, eu ia morrer junto com a minha ex-mulher". Ele também afirmou que fugiu para Bragança por temer pela própria vida.

No entanto, posteriormente, o suspeito mudou o depoimento e apresentou uma nova versão, desta vez assumindo motivação pessoal. Segundo ele, o crime teria sido motivado por ciúmes após descobrir uma suposta traição.

De acordo com essa segunda narrativa, a intenção inicial não seria matar, mas punir. A ideia seria dar um susto na vítima, cortando o cabelo dela. Ainda segundo o relato, a situação teria escalado após terceiros acessarem o celular da vítima e encontrarem supostos contatos com agentes de segurança pública, o que teria motivado a execução.

INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO

Diante das contradições, a Polícia Civil do Pará aprofunda as investigações para esclarecer a real motivação, a participação de outras pessoas, incluindo a mulher citada como "Duda", e a dinâmica exata do crime.

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