Na lei brasileira, o cigarro eletrônico, também conhecido como vape, é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Na prática, o produto é encontrado por preços que chegam a R$ 150, a depender da quantidade de inalações, caiu no gosto de um público, boa parte jovem, que tem acesso aos vapes em locais como portas de baladas. Mas, segundo a ciência, a prática coloca a saúde em risco em longo prazo.

Professor da Universidade Federal do Pará, ligado ao Hospital Universitário João de Barros Barreto, o médico pneumologista José Tadeu Colares Monteiro explica o que é o cigarro eletrônico. “Se trata de um dispositivo inalatório que entrega ao paciente uma espécie de nicotina líquida, diluída, em formato de um líquido que é vaporizado e, dessa forma, inalado”, descreve. “Desse vapor, são somados diversos flavorizantes, umectantes, substâncias químicas de várias origens, que vão causar com essa fumaça um certo prazer no momento em que o indivíduo inala”, completa.

O hábito tem como um dos riscos causar dependência a quem consome. “Dessa forma, o mecanismo de dependência química que desenvolve é tanto pela nicotina quanto pela ação dessas substâncias palatáveis que tem sabores de frutas, caramelo, que são extremamente prazerosos na hora do consumo”, pontua o médico.

José Tadeu destaca ainda as distinções do cigarro em seus formatos tradicional e eletrônico. “A diferença básica é o mecanismo do qual essa nicotina é acessada. No eletrônico, ela vem nesse formato líquido, que forma esse vapor, que é inalado. No tradicional, existe a combustão daqueles produtos que fazem parte do cigarro e, além da nicotina, tem o alcatrão, tabaco e outras substâncias químicas”, informa. “O líquido é submetido a uma temperatura alta que forma aquele vapor. A gente sabe que entrega o vapor já pronto e outro entrega a fumaça após a combustão do cigarro”.

A cantora Solange Almeida teve a voz prejudicada pelo uso excessivo do produto.
A cantora Solange Almeida teve a voz prejudicada pelo uso excessivo do produto. | FOTO: DIVULGAÇÃO

CANTORA

Seja como for, os prejuízos para a saúde do cigarro eletrônico voltaram ao noticiário nacional com uma entrevista da cantora Solange Almeida, que relatou sua experiência com o produto no programa Domingo Espetacular, da TV Record. “Perdi toda a vontade do mundo de cantar”, contou. “Comecei a ficar com a mucosa ressecada, dificuldade para cantar e respirar”.

Em outro trecho, Sol admitiu que sofreu com a dependência do vape. “Me vi no olho do furacão, sem conseguir deglutir, sem conseguir dormir, sentindo uma falta de ar absurda, primeiro pelo uso e depois pela abstinência do cigarro”. Ex-fumante e hoje liberta do vício após um pedido da filha, a artista lembrou que conheceu o produto em 2020, em uma brincadeira de amigos, e se encantou com a beleza “tecnológica” do dispositivo. “Tudo nele é bonito”, admitiu.

Os problemas relatados por Solange são alguns dos muitos que ainda estão em estudo pelos cientistas, afinal, o vape é uma febre nova, lembra o médico José Tadeu. “Estão no mercado há pouco tempo. Temos muitos adolescentes que, por causa dos sabores, estão em uma dependência muito rápida. O primeiro fenômeno é esse, então, por isso temos uma lesão pulmonar secundária, chamada de evali, com a utilização desses cigarros eletrônicos; quadro muito grave de uma pneumonia química produzida por esse cigarro”, relata. “Também existem relatos na literatura médica de acidentes com o uso desses aparelhos, explosão, destruição do aparelho na utilização, além da lesão pelo vapor tóxico no pulmão”.

Segundo o professor da UFPA, não existe “menos pior” quando se trata de cigarro tradicional ou eletrônico. “Na verdade, não existe o pior, todos dois devem ser desincentivados. Essa cultura de substituição é extremamente equivocada porque você só vai substituir um hábito pelo outro e todos dois são nocivos à saude”, reitera. “O tradicional já se sabe há mais de 40 anos que causa câncer de pulmão, enfisema pulmonar, doenças isquêmicas no cérebro e coração, são várias patologias”, pontua.

Até mesmo o narguilé, outro dispositivo de fumo que tem sido bastante apreciado, não é recomendável. “Ele é péssimo, uma sessão equivale a fumar cem cigarros, então você imagina os prejuízos que isso pode causar em longo prazo na saúde dos indivíduos. Ele também tem substâncias em forma de vapor que têm esses efeitos deletérios”.

Já o vape, sua utilização é um risco que se corre também no futuro. “Em longo prazo não se sabe o que pode acontecer com a saúde. Estudos de laboratório mostram que a atuação desse produto nas células pode levar à proliferação de células nocivas, malignas, liberação de substâncias inflamatórias, diminuição da resistência da via aérea… Se presume que no futuro surjam muitos casos de problemas respiratórios ligados ao cigarro eletrônico”.

O médico José Colares diz que o vape provoca dependência e os mesmos efeitos nocivos do cigarro. | FOTO: Wagner Santana

EM PAUTA: CIGARRO ELETRÔNICO

* Como parte de uma longa deliberação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) começou a receber evidências técnicas e científicas para tomar sua decisão regulatória sobre a liberação ou não de cigarros eletrônicos.

* Alheios ao debate, usuários brasileiros têm usado a internet, sem cerimônia, para dar dicas de utilização e relatar experiências com os “vapes” e “pods” (cigarro eletrônico menor), proibidos por aqui desde 2009.

* A primeira decisão da Anvisa já sinalizou um provável desfecho. Este mês, um grupo técnico da agência se manifestou pela manutenção da proibição de venda no país.

* Na clandestinidade, porém, os dispositivos sempre puderam ser encontrados em estabelecimentos comerciais, como bancas de jornal e tabacarias, sites e portas de baladas.

* Há 12 anos, a Anvisa estabeleceu que a comercialização, a importação e a propaganda de qualquer Dispositivo Eletrônico para Fumar (DEF) é proibida. Ainda assim, os aparelhos chegam a ser utilizados por cerca de 3% da população adulta brasileira, aponta o Datafolha, a maioria proveniente do contrabando.

* Em 2019, a Anvisa abriu um procedimento de análise dos cigarros eletrônicos, que envolve uma série de etapas para decidir até 2023 sobre a regulamentação ou não do produto no país. Parte do calendário, na última semana teve início a Tomada Pública de Subsídios (TPS), momento em que a agência recebe contribuições da sociedade civil.

* No relatório parcial, publicado no início do mês, o grupo técnico da agência defende que proibição seja mantida “devido a todos os riscos à saúde, tanto individuais quanto populacionais, comprovadamente causados pelos DEF e à ausência da comprovação de benefícios que justificassem a sua utilização”. Os técnicos dizem que os fabricantes, que apresentaram dossiês a autoridades internacionais, “falharam em provar os riscos imediatos, a médio e longo prazo”.

* A Fiocruz lançou na última semana um abaixo-assinado contra a autorização dos “vapes” no país, e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) pede “medidas mais rigorosas para fiscalização e punição de violadores” da proibição.

* Um estudo publicado neste mês pela Universidade da Califórnia, de fato mostrou que os “vapes” alteram o estado inflamatório em vários órgãos do corpo, incluindo o cérebro, coração, pulmões e cólon. Um trabalho anterior do grupo já havia constatado que o uso do cigarro eletrônico aumenta o risco de infarto em proporções semelhantes às do cigarro convencional.

* Uma carga de cigarro eletrônico equivale a três maços de cigarro, apontam pneumologistas.

* Um estudo da University College de Londres estimou que cerca de 50 mil pessoas deixaram de fumar no Reino Unido em 2017 graças aos cigarros eletrônicos. Essa premissa levou a autoridade regulatória do Reino Unido a publicar diretrizes, em outubro de 2021, para que empresas solicitem o registro de aparelhos que poderão ser prescritos por médicos. A autoridade sanitária entendeu que o dispositivo apresenta menos riscos que o modelo tradicional.

* Os EUA autorizaram pela primeira vez a venda de três dispositivos, sob o mesmo argumento. No entanto, uma análise de pesquisadores da Universidade da Califórnia retrata uma realidade diferente, na qual os dispositivos foram menos eficazes para o objetivo do que outras estratégias, como medicamentos pró-abstinência e medidas não farmacológicas.

Fonte: Agência O Globo

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