Com o avanço da idade, alterações no padrão de sono tornam-se cada vez mais comuns. Dormir menos horas, acordar durante a noite e enfrentar dificuldade para adormecer são queixas frequentes entre idosos. Apesar da crença popular de que pessoas mais velhas precisam de menos descanso, evidências científicas indicam o contrário: o cérebro continua necessitando de sono, mas perde a capacidade de mantê-lo profundo e contínuo.

A análise foi publicada na plataforma The Conversation Brasil pela pesquisadora Elena Urrestarazu Bolumburu, do Serviço de Neurofisiologia Clínica da Universidade de Navarra.

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Mudanças no cérebro afetam qualidade do sono

De acordo com a especialista, um dos principais fatores por trás da piora no descanso é a perda de estabilidade do sistema que regula o sono e a vigília. Em cérebros mais jovens, esse mecanismo funciona como um “interruptor” bem definido. Com o envelhecimento, neurônios responsáveis por manter o sono e o estado de alerta se enfraquecem, facilitando despertares frequentes e tornando o sono mais superficial.

Outro ponto relevante é o envelhecimento do relógio biológico, controlado pelo núcleo supraquiasmático. Com o passar dos anos, esse sistema sofre alterações que fazem com que o organismo “antecipe” o ciclo diário, levando idosos a dormir e acordar mais cedo. Além disso, o sinal que regula esse ritmo se torna menos intenso, o que contribui para um sono fragmentado e maior sonolência durante o dia.

A chamada “pressão do sono”, que se acumula ao longo do dia e induz o descanso noturno, também é afetada. Embora o cansaço continue sendo gerado, o cérebro passa a responder de forma menos eficiente a esse estímulo, dificultando a transição para um sono profundo.

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Sono profundo e memória também são impactados

O sono profundo, essencial para a recuperação cerebral, sofre redução com o envelhecimento. Isso ocorre porque áreas do cérebro responsáveis por essa fase, especialmente regiões frontais, perdem espessura e conexões ao longo do tempo. Como consequência, as ondas cerebrais lentas, típicas desse estágio, tornam-se menos frequentes e mais fracas.

Além disso, sinais cerebrais que ajudam a consolidar memórias durante o sono passam a ser menos coordenados. Esse fator pode contribuir para a redução da capacidade de aprendizagem e memória, mesmo em idosos considerados saudáveis.

A comunicação entre diferentes regiões do cérebro também perde eficiência, resultando em um sono menos restaurador.

Fatores externos agravam o problema

Embora as mudanças biológicas sejam centrais, fatores externos também exercem influência significativa. A perda de rotina, como horários fixos de trabalho, prática regular de exercícios e exposição à luz natural, pode desregular ainda mais o relógio biológico.

Distúrbios como insônia e apneia do sono são mais frequentes nessa fase da vida e contribuem para a fragmentação do descanso. Doenças crônicas, como problemas cardiovasculares, respiratórios e dores persistentes, também aumentam os despertares noturnos.

Outro fator relevante é o uso de medicamentos, que podem interferir diretamente na arquitetura do sono, alterando desde o início até a profundidade e a continuidade do descanso.

Quando o sono deixa de ser “normal”

Apesar de o sono mais leve ser considerado parte natural do envelhecimento, especialistas alertam para sinais que podem indicar problemas mais sérios, como processos neurodegenerativos.

Entre os principais alertas estão:

  • Fragmentação intensa e progressiva do sono, com despertares prolongados;
  • Sensação constante de cansaço, mesmo após horas adequadas na cama;
  • Sonolência diurna excessiva que interfere nas atividades cotidianas;
  • Alterações cognitivas recentes, como dificuldades de memória e atenção;
  • Redução acentuada do sono profundo ou do sono REM;
  • Inversão do ciclo sono-vigília (mais atividade à noite e sono durante o dia);

Necessidade crescente de medicamentos para dormir ou perda de eficácia dos tratamentos.

Segundo a pesquisadora, embora esses sinais não sejam suficientes para um diagnóstico, podem indicar a necessidade de avaliação médica. O sono, nesse contexto, surge como um possível marcador precoce de risco para doenças neurodegenerativas.

Envelhecimento natural, mas com atenção

A especialista reforça que, em condições saudáveis, o sono mais leve não está necessariamente associado a prejuízos cognitivos e faz parte do envelhecimento fisiológico do cérebro. No entanto, a sobreposição de fatores biológicos e externos pode intensificar o problema e torná-lo clinicamente relevante.

Diante disso, acompanhar mudanças no padrão de sono ao longo dos anos pode ser fundamental não apenas para melhorar a qualidade de vida, mas também para identificar precocemente possíveis alterações na saúde cerebral.

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