Em 2022, uma pesquisa realizada para a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) revelou que 71% dos brasileiros usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) não tinham o hábito de cuidar da saúde de forma preventiva no cotidiano. Quatro anos depois, o cenário continua desanimador. Somados ao envelhecimento da população e ao risco de novas doenças causadas pela crise climática, o aumento de doenças crônicas e a sobrecarga dos sistemas hospitalares e assistenciais do país reforçam, cada vez mais, a necessidade de atenção à saúde preventiva.
Para a docente do IDOMED, Eucimara Ribeiro, médica de família, existem agravantes que dificultam o cuidado com o bem-estar. “Ainda existe uma ideia muito forte de que saúde é apenas ‘não sentir nada’. Além disso, com a rotina cada vez mais corrida, o acesso aos serviços, principalmente públicos, nem sempre é fácil. Pessoas em situação de vulnerabilidade, que trabalham e precisam de atendimento de rotina, muitas vezes não conseguem um dia na agenda sem sofrer descontos no salário, então vão adiando esse cuidado”, comenta a especialista. “Também há falta de informação. Quando as pessoas entendem que exames e consultas periódicas podem identificar problemas precocemente, antes mesmo de qualquer sinal aparecer, passam a valorizar mais esse acompanhamento.”
Nesse contexto, a prevenção é uma estratégia essencial para manter a saúde. Hipertensão arterial, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, obesidade e até mesmo alguns tipos de câncer estão diretamente relacionados ao estilo de vida e podem ser retardados — ou até evitados — com acompanhamento adequado, por meio de abordagens simples e menos invasivas. E isso não se limita às doenças físicas, mas também inclui aspectos psicológicos e emocionais, como estresse, ansiedade, sobrecarga, qualidade das relações e nível de atividade no dia a dia.
Para o professor do MBA de Finanças do Ibmec, Cristiano Corrêa, a busca por exames de rotina também é o melhor caminho para evitar despesas maiores em casos de internações ou complicações que poderiam ter sido investigadas anteriormente. “De forma geral, a prevenção e o acompanhamento médico tendem a reduzir o risco de situações como internações, urgências e tratamento mais complexos uma vez que ajudam a evitar a doença, a detecção precoce ou minimizar fatores de risco antes que virem complicações. Esse processo evita gastos maiores uma vez que a prevenção evita ou no limite, adia complicações graves que normalmente trazem por consequências gastos com internações de urgência (por exemplo, crise de diabetes, hipertensão, infarto, AVC etc.), cirurgias de emergência ou procedimentos de alto custo ou ainda tratamento de longo prazo com medicações caras e reinternações”, destaca.
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Além de ser um alívio nas contas, a prevenção é fundamental para salvar vidas. “Às vezes, o nosso organismo se comporta como um sapo colocado em uma panela com água fria. Se essa água for aquecida aos poucos, ele vai se adaptando gradualmente ao aumento da temperatura. O problema surge quando o calor se torna insuportável e ele já não consegue reagir. Da mesma forma, o corpo humano se adapta lentamente a determinados problemas de saúde ou fatores de risco. Esse processo pode ocorrer de forma silenciosa, sem sintomas perceptíveis. Porém, existe um limite, um ponto em que o organismo já não consegue mais compensar. É nesse momento que surgem os sintomas e as complicações — e pode ser tarde demais. Por isso, na Medicina de Família e Comunidade, insistimos tanto na prevenção e no acompanhamento regular”, explica a professora Eucimara.
Um erro comum apontado pela comunidade científica é a busca por exames sem indicação. Para Eucimara, o mais importante não é realizar todos os tipos de exames, mas contar com uma orientação individualizada, de preferência com um profissional que acompanhe e gerencie esse cuidado. O próprio “check-up” deve ser personalizado, levando em conta fatores como idade, histórico familiar, hábitos de vida, doenças pré-existentes e até mesmo as preocupações e expectativas do paciente. Ela ressalta que é fundamental conversar com o médico de forma honesta, para que o contexto seja corretamente avaliado, evitando tanto a falta de investigação quanto a realização de exames desnecessários.
“Cuidar da saúde de forma preventiva é olhar para o bem-estar antes que a doença apareça, mas também avaliar o que já pode estar causando prejuízos no dia a dia. Na prática, isso envolve hábitos como alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e vacinação. Também inclui reduzir ou eliminar comportamentos de risco, como o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e outros vícios. Ou seja, prevenir não é apenas pensar em evitar doenças futuras por meio de check-ups, mas também mudar, no presente, aquilo que já impacta negativamente a saúde e que pode trazer ainda mais prejuízos no futuro”, destaca a médica.
