Nem todo ciúme caracteriza uma relação abusiva, mas a maneira como esse sentimento se transforma em comportamento pode acender um sinal de alerta. Monitorar o celular, exigir localização, controlar roupas, amizades ou dinheiro e afastar a mulher de pessoas importantes são atitudes que, quando usadas para restringir a liberdade, podem revelar um padrão de controle e coerção. O alerta é da psicóloga Julianna Cerbino, entrevistada do DOL para uma matéria especial do Agosto Lilás, que em 2026 marca os 20 anos da Lei Maria da Penha.
Segundo a especialista, é importante diferenciar o sentimento de ciúme das atitudes adotadas a partir dele. Sentir ciúmes, isoladamente, não significa que exista violência. A preocupação surge quando o sentimento passa a ser utilizado para justificar comportamentos que reduzem a autonomia da parceira. "É importante fazer uma diferenciação: sentir ciúme, por si só, não significa que exista uma relação abusiva. O que precisamos observar é o que a pessoa faz a partir desse sentimento”, explica Julianna.
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O QUE DIFERENCIA CIÚME DE CONTROLE?
Para a psicóloga, o sinal de alerta aparece quando o ciúme passa a justificar atitudes como monitorar o celular, exigir localização, controlar roupas, amizades ou dinheiro e afastar a mulher de pessoas importantes. "Quando o ciúme começa a justificar comportamentos de controle, como monitorar o celular, exigir localização, controlar roupas, amizades, dinheiro ou tentar afastar a mulher de pessoas importantes para ela, isso já é um sinal de alerta", afirma.
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MULHER PODE COMEÇAR A MUDAR O PRÓPRIO COMPORTAMENTO
A especialista chama atenção para um aspecto menos evidente desse tipo de violência: as mudanças que a própria mulher passa a fazer para evitar a reação do parceiro. "Pela perspectiva da Análise do Comportamento, é muito importante observar o padrão que vai se construindo. Às vezes, a mulher começa a mudar sua forma de agir para evitar uma discussão, uma cobrança ou uma reação do parceiro", explica.
Segundo Julianna, isso pode fazer com que ela deixe de encontrar determinadas pessoas, altere a maneira de se vestir ou passe a dar explicações sobre as mais simples atividades contidianas. "Ela deixa de sair com determinadas amizades, muda uma roupa, evita responder alguém ou passa a prestar contas de tudo o que faz, não porque realmente queira, mas porque já está antecipando a reação do parceiro."
Para a psicóloga, essa antecipação da reação do outro é um dos pontos que precisam ser observados. "Quando uma pessoa começa a abrir mão da própria autonomia para evitar a reação do outro, precisamos olhar com bastante atenção para essa relação. Isso pode indicar um padrão de controle e coerção, e não simplesmente uma demonstração de amor ou cuidado."
VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA PODE COMEÇAR DISFARÇADA DE CUIDADO
Outro fator que dificulta o reconhecimento do abuso é que a violência psicológica nem sempre aparece inicialmente como uma agressão evidente. "Porque a violência psicológica nem sempre começa parecendo violência. Muitas vezes, ela vem inicialmente disfarçada de cuidado, preocupação ou até de uma demonstração de amor", afirma Julianna.
A especialista cita situações em que o parceiro apresenta o controle como uma forma de proteção. "'Eu quero saber onde você está porque me preocupo’, ‘não gosto daquela pessoa porque quero proteger você'."
De acordo com ela, o problema é que essas atitudes podem se tornar progressivamente mais frequentes e restritivas. "E, aos poucos, esses comportamentos podem se tornar mais frequentes e mais restritivos."
O MEDO DA REAÇÃO DO PARCEIRO É UM ALERTA
A violência também pode se estabelecer de maneira gradual. A mulher começa fazendo pequenas mudanças para evitar discussões e, com o tempo, pode deixar de realizar atividades importantes ou se afastar de pessoas próximas.
"Além disso, esse processo costuma acontecer de forma gradual. A mulher pode ir fazendo pequenas mudanças na própria vida para evitar conflitos e, quando percebe, já está deixando de fazer coisas importantes, se afastando de pessoas que ama ou tendo medo de como o parceiro vai reagir", detalha.
Para Julianna, esse medo pode ser um dos sinais mais importantes de que os limites de uma relação saudável estão sendo ultrapassados. "Para mim, um dos principais sinais de alerta é justamente esse: quando você começa a organizar sua vida em função da reação do outro", opina.
A psicóloga explica que a situação pode ser percebida em decisões aparentemente simples do cotidiano. "Se eu penso duas vezes antes de sair, de conversar com alguém, de vestir determinada roupa ou de expressar uma opinião porque tenho medo do que meu parceiro vai fazer ou dizer, alguma coisa nessa relação precisa ser olhada com cuidado."
RELAÇÃO SAUDÁVEL NÃO SIGBIGIVA AUSÊNCIA DE CONFLITOS
Julianna ressalta que uma relação saudável não é necessariamente aquela em que nunca existem ciúmes ou discussões. O ponto central está na maneira como os conflitos são conduzidos. "Uma relação saudável não é uma relação sem ciúmes ou sem conflitos. É uma relação em que existe espaço para diálogo, respeito, autonomia e limites."
Nesse sentido, a especialista reforça que o afeto não deve ser usado como justificativa para limitar a liberdade da parceira. "Amor não deveria exigir que a pessoa diminuísse a própria liberdade para que o outro se sentisse seguro."
No contexto do Agosto Lilás, a reflexão ganha ainda mais importância. Ao completar 20 anos, a Lei Maria da Penha amplia o debate sobre a violência contra a mulher e sobre a necessidade de reconhecer não apenas as agressões físicas, mas também os comportamentos que, de maneira silenciosa e progressiva, podem comprometer a autonomia e a liberdade feminina.
