A ideia de que é possível prestar atenção em duas ou mais coisas ao mesmo tempo é uma ilusão: o máximo que a mente humana consegue fazer é saltar muito rapidamente de uma tarefa para outra. Novos estudos sugerem que essa limitação deriva da arquitetura profunda do cérebro, um órgão que precisaria se virar com um suprimento mais ou menos fixo de energia trazido pelos vasos sanguíneos.

"É vida que funciona no limite, quase forçando a barra -mas funciona, que é o que importa", diz a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt (EUA) e colunista da Folha de S.Paulo.

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Ela e seus colegas estão propondo um modelo diferente para enxergar como o cérebro lida com suas necessidades energéticas. Em vez de supor que o organismo é capaz de redirecionar todos os recursos necessários para os tecidos cerebrais sempre que houver demanda para isso, eles argumentam que a estrutura do órgão precisa sempre lidar com o fato de que tem pouca margem de manobra -daí a necessidade de resolver um problema cognitivo por vez, entre outras restrições intrínsecas ao funcionamento dele.

A pesquisadora detalha os dados em favor dessa hipótese em artigos no periódico especializado Frontiers in Integrative Neuroscience. Entre os coautores dos estudos estão Lissa Ventura-Antunes e Oisharya Moon Dasgupta, também da Universidade Vanderbilt, e Douglas Rothman, da Universidade Yale (EUA).

GASTO ENERGÉTICO

Como qualquer outro órgão, o cérebro depende da rede de vasos sanguíneos distribuída pelo nosso organismo para sobreviver. Neurônios e demais células cerebrais são abastecidas com oxigênio e glicose (açúcar) por meio dos capilares sanguíneos, finíssimas "mangueiras" que desembocam nelas. O sangue chega aos capilares a partir da artéria carótida principal, responsável por abastecer a cabeça e o pescoço.

Sabe-se ainda que o cérebro é uma estrutura particularmente "beberrona", feito um automóvel nem um pouco econômico na hora de usar combustível. Entre seres humanos, ele pode consumir entre 20% e 25% da energia gasta pelo corpo ao longo do dia, embora corresponda apenas a algo entre 2% e 3% do peso corporal. Em menor escala, esse dispêndio desproporcional de energia por parte do cérebro também vale para outras espécies de mamíferos.

Um detalhe intrigante nesse aparente esbanjamento de energia é que, embora o fluxo sanguíneo possa quase dobrar em determinada região do cérebro que esteja sendo ativamente usada (digamos, o córtex visual, crucial para a visão, quando alguém está examinando os detalhes de uma fotografia), o consumo de oxigênio aumenta muito menos nessa mesma região cerebral. Tal "desacoplamento" aparente, que intriga neurocientistas há três décadas, é agora explicado pela capacidade de transporte de oxigênio do sangue para o cérebro, limitada pela densidade de capilares no tecido.

FUNCIONAMENTO DIFERENCIADO

Além disso, tem ficado cada vez mais claro que o cérebro aparentemente em repouso, quando o indivíduo está acordado, mas sem se envolver em nenhuma tarefa cognitiva definida, na verdade está tão ativo, e consumindo tanta energia, quanto um cérebro mais "focado". Em outras palavras, o tecido nervoso funcionaria de um jeito completamente diferente dos músculos, por exemplo, que só passam a gastar muita energia quando a pessoa está movimentando alguma parte do corpo.

A esses dados se soma uma análise detalhada do consumo de glicose nos neurônios de camundongos e ratos, realizada por Herculano-Houzel, Ventura-Antunes e Dasgupta. O trio de pesquisadoras verificou que, embora a densidade de neurônios (ou seja, quantas dessas células estão empacotadas num dado espaço) possa variar centenas de vezes dependendo da região do cérebro dos roedores, a densidade de capilares que abastecem cada região varia, no máximo, quatro vezes.

Para as cientistas, isso joga por terra a ideia de que o cérebro estaria organizado de maneira a alimentar com mais oxigênio e glicose as regiões que são mais "famintas" por causa da grande quantidade de neurônios, já que o aumento da densidade de células nervosas não é acompanhado de um aumento proporcional de capilares sanguíneos. Na verdade, tudo indica que as áreas com mais densidade de neurônios recebem proporcionalmente menos combustível do que as que têm uma concentração menor dessas células.

Em conjunto, tudo isso sugeriria que o máximo que o cérebro consegue fazer é redirecionar ligeiramente a distribuição de recursos para certas áreas, dependendo da atividade realizada. É aí que se inserem as implicações da hipótese para entender as limitações da atenção humana (e de outros animais).

"É extremamente difícil fazer bem duas coisas ao mesmo tempo. Fazê-las em sequência é mais fácil", resume o neurocientista português António Damásio, da Universidade do Sul da Califórnia.

MULTITAREFAS? QUE NADA!

De fato, mesmo as pessoas que parecem funcionar bem como "multitarefas" em geral estão apenas alternando com frequência entre uma tarefa e outra. E vários estudos mostram que, na grande maioria dos casos, a qualidade das tarefas realizadas tende a cair quando são realizadas em paralelo. Também podem surgir efeitos negativos de longo prazo sobre a capacidade de concentração.

Segundo Herculano-Houzel, há indícios de que ocorra uma espécie de cabo de guerra entre as diferentes estruturais cerebrais nesse caso, com saltos da atenção de uma modalidade sensorial para a outra (da audição para a visão, digamos). "O que Doug [Rothman] e eu propomos é que existe uma limitação fundamental, de origem energética, a fazermos várias coisas ao mesmo tempo; claro que outros sistemas funcionam por cima dessa limitação."

Se a proposta estiver correta, ela pode trazer implicações que vão além da compreensão mais detalhada sobre como o cérebro funciona. O mecanismo poderia ajudar a entender por que certas regiões do cérebro são mais vulneráveis à perda de suas funções durante o declínio cognitivo natural que acontece no envelhecimento, ou em formas mais severas dele, como a doença de Alzheimer. Uma das possibilidades, dizem os pesquisadores, é que justamente as regiões com maior densidade de 

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