A mensagem foi visualizada, os dois tiques azuis aparecem, mas a resposta não chega. E agora? Pois bem, o que parece exagero tem base científica: pesquisas associam o uso intenso de aplicativos de mensagem ao aumento de ansiedade e sensibilidade à rejeição.

Os estudos mais recentes afirmam que o cérebro humano não diferencia rejeição presencial de digital, como conta a psicóloga clínica pós-graduada pela PUC-Minas, Ana Carolina Silva Rodrigues. Ela confirma que o sistema nervoso reage de forma similar nos dois casos.

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"O cérebro busca previsibilidade e segurança. Quando o ambiente causa instabilidade, o sistema nervoso emite alerta e aumenta a ansiedade", afirma a especialista.

Outro estudo publicado na revista Science pela pesquisadora Naomi Eisenberger demonstrou que a exclusão social ativa as mesmas regiões cerebrais relacionadas à dor física.

Mesmo que a interação aconteça por meio de uma tela, o corpo responde como se enfrentasse ameaça real ao vínculo social.

Dopamina e cortisol criam ciclo de checagem constante

O estudo aponta um dado que justifica a sensação de rejeição: o "visualizado sem resposta" interrompe o ciclo de recompensa da dopamina e eleva os níveis de cortisol.

O WhatsApp funciona como sistema de recompensa variável: como não sabemos quando a pessoa vai visualizar ou responder, checamos a tela repetidamente.

"A incerteza ativa o sistema de alerta. Surgem questões como 'Por que não respondeu?' ou 'Fiz algo errado?'. É o sistema biológico reagindo à quebra de expectativa social", explica Ana Carolina.

O psicólogo B. F. Skinner descreveu originalmente o conceito de recompensa variável ao estudar como recompensas imprevisíveis reforçam comportamentos repetitivos. Notificações e respostas intermitentes funcionam dentro dessa lógica.

Já Rafael Ferreira Simões, psiquiatra mestre pela UFMG, destaca que as redes sociais têm interesse em manter usuários engajados.

"A confirmação de visualização compele a pessoa a responder rapidamente. Quem demora pode parecer rude ou distante, o que afeta a relação", diz.

Relatórios da American Psychological Association indicam que a conectividade constante aumenta estresse e ansiedade, principalmente quando há expectativa de disponibilidade imediata.

Quando o silêncio vira rejeição

Ferramentas como "visto por último" e confirmação de leitura transformam pausas naturais em dados observáveis. Ana Carolina explica que esses recursos eliminam o benefício da dúvida sobre disponibilidade e violam a privacidade do tempo de resposta.

"O sistema límbico interpreta a falta de notificações como ameaça ao vínculo social. Caímos em ciclo vicioso de ansiedade e buscamos validação imediata para aliviar a insegurança criada pela própria ferramenta", afirma a psicóloga.

Simões reforça que a sociedade contemporânea estimula ideais de produtividade, disponibilidade e entusiasmo constante.

"Diante do silêncio ou demora na resposta, podemos projetar no outro nosso medo da rejeição", completa.

Pesquisas do Pew Research Center mostram que muitos usuários sentem pressão para responder rapidamente a mensagens, especialmente em contextos afetivos e profissionais.

Cérebro preenche vazio com cenários negativos

Quando a resposta não chega, o cérebro cria interpretações.

"Ele não deixa espaços vazios. Sem informações concretas, constrói percepções quase sempre negativas por questão de sobrevivência", diz Ana Carolina.

A especialista compara: "É melhor confundir corda com cobra do que cobra com corda. O cérebro prefere preparar para o pior cenário a ser surpreendido".

A ausência de comunicação não verbal — tom de voz, expressão facial, contexto — amplia esse efeito. As brechas deixadas pelo silêncio abrem espaço para que a pessoa projete suas próprias inseguranças.

Especialistas destacam na Psychology Today que interações digitais reduzem pistas sociais, o que aumenta interpretações negativas quando há ambiguidade. Menos informação concreta significa mais espaço para suposição.

Silêncio pode ser ferramenta de controle

Nem todo atraso representa manipulação, mas pode ser.

Ana Carolina afirma que ignorar mensagem entra no campo da agressividade passiva quando usado como forma de punição ou controle.

"Quem silencia se coloca na posição de poder, decide quem tem direito à palavra. Retira do outro a capacidade de diálogo e o coloca em estado de ostracismo digital", explica.

A especialista faz distinção importante: atraso não significa necessariamente desinteresse ou agressão. A vida offline continua e nem toda ausência é estratégica.

Como lidar com a ansiedade da espera

Ana Carolina defende mudança de perspectiva.

"O silêncio do outro não é julgamento sobre quem somos, mas reflexo da vida dele, que não estamos vendo", conta.

O sofrimento nasce da personalização da ausência de resposta. A mente conclui automaticamente que houve desinteresse ou rejeição.

"Nossa ansiedade vem da ilusão de que temos controle sobre o tempo das pessoas só porque elas estão com o celular na mão", afirma.

A psicóloga propõe "contratos de comunicação" mais realistas, como:

  • Entender que WhatsApp é para ser usado no tempo de cada um, não em tempo real;
  • Reconhecer que expectativa de resposta imediata reflete cultura de hiperconectividade;
  • Evitar postura defensiva que finge indiferença para não parecer vulnerável.

"Quando tratamos o outro como descartável para não sofrer, jogamos fora o que temos de melhor: nossa humanidade. Falar de sentimento não deveria ser motivo de vergonha. Uma vida sem trocas reais e sinceras acaba vazia", conclui.

A proposta não é responder mais rápido, mas interpretar com mais cuidado. Em vez de transformar o "visualizado" em prova de desinteresse, a especialista sugere enxergar o silêncio como parte natural da vida do outro, não como medida do próprio valor.

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