Há milênios, civilizações da Mesopotâmia gravaram em argila úmida os registros de sua existência. Nos tempos atuais, uma ferramenta de inteligência artificial permite que esses registros falem novamente.

Pesquisadores da Alemanha conseguiram decifrar uma tabuleta mesopotâmica com cerca de 3 mil anos de idade. Para isso, utilizaram uma plataforma de inteligência artificial chamada Palaeographicum, desenvolvida para analisar inscrições em escrita cuneiforme.

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O sistema foi capaz de identificar caracteres quase invisíveis a olho nu, o que representa um avanço significativo para a arqueologia e a história antiga.

O Palaeographicum é uma plataforma digital que usa IA para analisar documentos escritos em cuneiforme.

Por meio de fotografias digitalizadas em alta resolução, o sistema reconstrói fragmentos dispersos de tabuletas antigas. Além disso, ele compara estilos de escrita e auxilia na datação de textos produzidos séculos antes da era comum.

A plataforma já conta com um acervo de mais de 5 milhões de caracteres, preservados em cerca de 70 mil imagens de tabuletas.

A escrita cuneiforme e seus desafios

A escrita cuneiforme surgiu há mais de 5 mil anos na antiga Mesopotâmia. Ela era produzida com marcas em formato de cunha, feitas com um estilete sobre placas de argila úmida.

Por meio desse sistema, civilizações antigas registraram leis, transações comerciais, rituais religiosos e eventos políticos.

Com o passar dos séculos, porém, a maior parte das tabuletas se fragmentou e se dispersou por museus e coleções arqueológicas de diferentes países.

Além das quebras físicas, muitos sinais também sofreram desgaste severo, o que dificulta a leitura mesmo para especialistas experientes.

Como a IA foi treinada?

A base tecnológica do Palaeographicum nasceu no projeto CuKa, desenvolvido entre 2018 e 2023 com financiamento da Fundação Alemã de Pesquisa.

Durante esse período, especialistas em filologia anotaram manualmente milhares de exemplos para treinar o modelo de IA.

O sistema aprendeu a reconhecer sinais cuneiformes antigos, inclusive os incompletos ou parcialmente apagados. Em seguida, os pesquisadores alimentaram a plataforma com imagens digitais de alta resolução da tabuleta estudada.

Com isso, o programa analisou padrões na escrita antiga e sugeriu interpretações para os sinais identificados no objeto.

Impacto para os pesquisadores

Daniel Schwemer, chefe do departamento de estudos do Antigo Oriente Próximo da Universidade de Würzburg e um dos responsáveis pelo projeto, destacou o alcance da ferramenta.

"O Palaeographicum está mudando radicalmente nosso trabalho; ele nos permite economizar milhares de horas", afirmou em comunicado divulgado na última segunda-feira (18).

Além disso, o pesquisador Gerfrid Müller ressaltou que a equipe aprimora o sistema de forma contínua.

"Estamos constantemente aperfeiçoando o treinamento da IA", disse Müller, acrescentando que sugestões da comunidade internacional de hititologia também são incorporadas ao sistema.

Tecnologia em favor da história antiga

A ferramenta traz benefícios que vão além da simples leitura de inscrições. Entre as principais possibilidades abertas pelo Palaeographicum, destacam-se:

  • Reconstrução de fragmentos dispersos de documentos antigos, reunindo pedaços espalhados por diferentes coleções;
  • Preservação digital de artefatos frágeis, danificados por erosão, incêndios ou deterioração natural ao longo dos séculos.

Além disso, o sistema automatiza uma tarefa que, até recentemente, dependia de análise manual minuciosa feita por paleógrafos e especialistas em línguas do Antigo Oriente Próximo.

Por isso, arqueólogos que antes passavam anos decifrar uma única inscrição fragmentada poderão obter resultados em fração desse tempo.

Um novo olhar sobre civilizações antigas

A aplicação da inteligência artificial à arqueologia mostra que tecnologias modernas podem resgatar informações antes consideradas perdidas.

O avanço também abre novos caminhos para o estudo das primeiras formas de escrita da história humana.

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Povos que ajudaram a fundar os alicerces da civilização escrita agora podem ser compreendidos com mais profundidade, graças a ferramentas que sequer existiam há uma década.

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