Dois estudos publicados na revista científica Nature revelaram novas pistas sobre a origem dos cães domésticos e identificaram o exemplar mais antigo já confirmado geneticamente. O animal viveu há cerca de 15.800 anos e foi identificado a partir de restos ósseos encontrados no sítio arqueológico de Pinarbasi, na atual Turquia.

A descoberta amplia significativamente o conhecimento sobre a presença dos cães entre grupos humanos pré-históricos. Segundo os pesquisadores, o cão de Pinarbasi é aproximadamente 5.000 anos mais antigo do que o canino mais antigo anteriormente identificado e confirmado por análises genéticas.

Os estudos indicam que os cães já estavam amplamente distribuídos pela Eurásia Ocidental muito antes do surgimento da agricultura. A datação de outros exemplares encontrados em diferentes sítios arqueológicos europeus reforça a ideia de que esses animais desempenhavam um papel importante nas sociedades de caçadores-coletores.

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William Marsh, pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Genômica Antiga do Instituto Francis Crick, em Londres, e um dos autores da pesquisa, explicou que as evidências de DNA mostram que os cães já estavam presentes em várias regiões da Eurásia Ocidental há cerca de 18 mil anos e apresentavam diferenças genéticas significativas em relação aos lobos.

De acordo com Marsh, acredita-se que a separação entre as populações de cães e lobos tenha ocorrido ainda antes do último máximo glacial, período que antecede aproximadamente 24 mil anos atrás, embora os cientistas reconheçam que ainda existe um elevado grau de incerteza sobre essa cronologia.

Os cães descendem de uma antiga população de lobos hoje extinta e foram os primeiros animais domesticados pelos seres humanos. Posteriormente, outras espécies passaram pelo mesmo processo, como cabras, ovelhas, bovinos e gatos.

Para o geneticista Anders Bergström, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, os cães acompanharam a humanidade durante profundas transformações sociais e culturais ao longo da história.

“Os cães estiveram ao nosso lado enquanto os humanos passavam por grandes transições de estilo de vida e sociedades complexas surgiam”, afirmou o pesquisador, autor principal de um dos estudos.

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Bergström também destaca que, diferentemente de muitos animais domesticados, os cães nem sempre desempenharam funções claramente definidas. Segundo ele, a companhia oferecida pelos animais pode ter sido uma das principais razões para sua permanência ao lado dos humanos ao longo dos séculos.

Em uma das pesquisas, a equipe de Bergström analisou geneticamente 216 restos mortais encontrados em sítios arqueológicos da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Escócia, Suécia, Suíça e Turquia. Os materiais tinham idades entre 46 mil e 2 mil anos. O levantamento é considerado o maior já realizado para diferenciar geneticamente cães e lobos antigos.

Os pesquisadores identificaram 46 cães e 95 lobos. Como os esqueletos das duas espécies eram extremamente semelhantes nos estágios iniciais da domesticação, os exames genéticos foram fundamentais para distingui-los.

Entre os exemplares analisados, o cão europeu mais antigo confirmado geneticamente foi encontrado na caverna de Kesslerloch, na Suíça, e viveu há aproximadamente 14.200 anos. Os resultados mostraram que os primeiros cães da Europa compartilhavam uma origem comum com cães da Ásia e de outras regiões do mundo, descartando a hipótese de múltiplos eventos independentes de domesticação.

O estudo liderado por Marsh revelou ainda detalhes sobre a relação entre os antigos habitantes de Pinarbasi e seus cães. No local, arqueólogos encontraram sepultamentos de humanos e cães, indicando que os animais recebiam tratamento semelhante ao destinado às pessoas da comunidade.

Além disso, foram identificadas evidências de que os cães eram alimentados com peixe pelos moradores da região.

A pesquisa também identificou outros cinco cães datados entre 15.800 e 14.300 anos atrás, incluindo restos encontrados na Caverna de Gough, próxima à cidade de Cheddar, na Inglaterra. Nesse sítio arqueológico, os cientistas observaram marcas associadas ao processamento de corpos humanos após a morte, incluindo evidências de canibalismo ritualístico. Alterações semelhantes foram encontradas nos restos do cão, embora não haja indicação de que ele tenha sido consumido.

As análises genéticas apontaram ainda que os cães de Pinarbasi e da Caverna de Gough possuem maior parentesco com os ancestrais de raças modernas da Europa e do Oriente Médio, como boxer e saluki, do que com raças árticas, como o husky siberiano.

Além da companhia, os pesquisadores acreditam que esses cães ancestrais poderiam auxiliar na caça e atuar como guardiões dos acampamentos, funcionando como uma espécie de sistema de alerta durante a Era do Gelo. Apesar disso, sua aparência provavelmente ainda era bastante semelhante à dos lobos dos quais descendiam.

Embora as novas descobertas representem um avanço importante no entendimento da história dos cães, os cientistas ressaltam que questões fundamentais sobre a domesticação permanecem em aberto.

“As perguntas sobre quando, onde e por que as pessoas domesticaram os cães ainda estão longe de serem totalmente respondidas. Acreditamos que isso provavelmente ocorreu em algum lugar da Ásia, mas o local exato ainda é desconhecido”, concluiu Bergström.

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